Engenharias do sertão

No Norte de Minas e no Vale do Jequitinhonha e do Mucuri, a chuva chega concentrada em poucos meses, intensa e rápida, e deixa para trás longos períodos de seca. O desafio nunca foi esperar chover, mas aprender a não desperdiçar a chuva que chega. Esse aprendizado começou nas próprias comunidades. Agricultores que observavam o comportamento da enxurrada, a forma como a água era infiltrada no solo, o tempo que a umidade durava depois das chuvas. Desse olhar atento nasceram técnicas passadas de geração em geração e aprimoradas com o tempo.

Tecnologias que guardam a chuva

A cisterna de placa é a mais difundida dessas soluções. Capta a água da chuva pelo telhado da casa, conduz por calhas até um reservatório de concreto enterrado no quintal e armazena até 16 mil litros, o suficiente para abastecer uma família de cinco pessoas por até oito meses de estiagem, sem depender de caminhão-pipa ou poço distante.

A cisterna-calçadão amplia essa lógica para a produção: com 52 mil litros, capta água de uma área de concreto ao redor da estrutura e a destina a quintais produtivos e a criação de animais. A diferença entre as duas resume bem a engenharia do Semiárido: primeiro a água para beber, depois a água para produzir.

A barragem subterrânea funciona de forma menos visível, mas igualmente eficaz. Construída no leito de riachos temporários, cria uma barreira impermeável que retém o lençol freático no próprio solo. A água fica disponível nas raízes das plantações por semanas ou meses depois que as chuvas passam. Mas, para dimensioná-la, é preciso entender o comportamento do terreno: onde a água corre, onde se infiltra e como o solo responde. 

Segundo Daniela Pedroza, engenheira ambiental e conselheira Consultiva ESG, a eficácia dessas estruturas depende de um trabalho técnico que considera as características de cada local:

“A engenharia como um todo tem um papel fundamental, porque não basta construir uma estrutura. É preciso garantir que essa estrutura funcione de forma segura, de forma eficiente e obviamente duradoura. A cisterna, por exemplo, é muito mais do que um reservatório. Ela precisa ser dimensionada de acordo com o regime de chuvas, de acordo com o tamanho da família e as demandas locais.”

Para Daniela, o diferencial está justamente na combinação de experiências. “O maior mérito da engenharia é unir conhecimento científico e conhecimento popular. Muitas dessas tecnologias nasceram da observação das próprias comunidades. A engenharia contribui para aprimorá-las, aumentar a eficiência e ampliar os benefícios para mais e mais pessoas”, pontua.

O que começou como prática de agricultores foi sendo sistematizado por organizações da sociedade civil que atuam no território há décadas. Comunidades trocando experiências, entidades mapeando o que funcionava, engenheiros aprendendo no campo tanto quanto nas universidades. Desse processo nasceram as bases das políticas públicas de segurança hídrica que hoje chegam ao Semiárido.

Em 2024, o Programa Cisternas contou com R$ 570 milhões em investimentos federais. Segundo balanço da ASA Brasil, organização que participa da execução da política, foram entregues 47.290 cisternas e outras tecnologias de acesso à água para famílias do Nordeste e de Minas Gerais, beneficiando aproximadamente 213 mil pessoas e ampliando a capacidade de armazenamento em 255 milhões de litros.

O papel da engenharia

O Índice Mineiro de Vulnerabilidade Climática, atualizado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SEMAD) em 2024, classifica 139 municípios do Norte de Minas e do Jequitinhonha com alta ou extrema exposição a eventos climáticos. Com o Semiárido se expandindo e as chuvas se tornando cada vez mais irregulares, a demanda por soluções bem projetadas cresce cada vez mais.

É aí que as engenharias civil e ambiental fazem a diferença. São elas que ajudam a calcular a espessura das paredes da cisterna, definem o ponto exato onde a lona da barragem deve ser ancorada na rocha, escolhem o material adequado para cada tipo de solo. Uma cisterna mal dimensionada pode rachar. Uma barragem subterrânea mal posicionada pode não reter a água no ponto adequado.

Na avaliação da engenheira, os desafios ambientais enfrentados pelo Semiárido exigem estratégias que permitam a permanência das pessoas nos territórios onde vivem. “No fundo, a engenharia ambiental é um grande vetor para ajudar a transformar os desafios ambientais em oportunidades para que as pessoas permaneçam em seus territórios com dignidade e mais qualidade de vida”, diz.

Para a Sociedade Mineira de Engenharia, é esse o debate que importa na Semana do Meio Ambiente: uma engenharia que valoriza os saberes das comunidades e projeta soluções duráveis e sustentáveis para quem mais depende delas.

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