Crescimento na produção dos carros elétricos amplia debates sobre sustentabilidade, infraestrutura urbana e eficiência energética, colocando a engenharia no centro da transformação da mobilidade brasileira
Os carros elétricos, de acordo com pesquisas realizadas pela ABVE, deixaram de ser uma projeção distante sobre o futuro da mobilidade urbana. Cada vez mais presentes nas ruas, eles começam a transformar não apenas a forma como as pessoas se deslocam, mas também as discussões sobre infraestrutura, sustentabilidade, eficiência energética e planejamento das cidades.
O avanço desse mercado no Brasil acompanha um movimento global impulsionado pela busca por fontes de energia mais limpas, redução de emissões de carbono e desenvolvimento de soluções urbanas mais inteligentes. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que o mercado brasileiro de veículos eletrificados segue em expansão. Em 2024, o país registrou 177.358 emplacamentos de veículos leves eletrificados — crescimento de 89% em relação ao ano anterior. Já em 2025 as vendas de veículos elétricos e híbridos em Minas Gerais mais que triplicaram em um ano, saltando de 843 emplacamentos em abril de 2025 para 2.836 em abril de 2026, um avanço de 236%. Os dados refletem uma mudança gradual no comportamento do consumidor e também no setor produtivo.
Para José Cláudio Nogueira Vieira, vice-presidente da Sociedade Mineira de Engenharia (SME), a mobilidade elétrica representa uma mudança estrutural que vai muito além da substituição do combustível.
“Quando falamos em carros elétricos, estamos falando de engenharia, infraestrutura, energia, planejamento urbano e tecnologia trabalhando juntos. A discussão sobre os veículos elétricos envolve diferentes áreas da engenharia, desde o desenvolvimento das baterias e sistemas eletrônicos até a criação de redes de carregamento, expansão da capacidade energética e integração com cidades inteligentes. É uma transformação que impacta diretamente a forma como as cidades serão organizadas no futuro”, afirma José Cláudio Nogueira Vieira..
“Um dos pontos que mais chama atenção é a eficiência energética dos veículos elétricos em comparação aos modelos movidos a combustíveis fósseis. O carro elétrico aproveita muito melhor a energia que consome. Além da redução de emissão de poluentes, existe uma economia operacional importante, principalmente para quem utiliza o veículo diariamente, como motoristas de aplicativo e empresas de frota”, explica.
Em entrevista para o Diário do Comércio, Thiago Sugahara, vice-presidente da ABVE, afirma que o mercado praticamente dobra de tamanho a cada dois anos, tendência que deve se consolidar em 2026 com um novo recorde. E com a preocupação dos motoristas com o custo dos combustíveis fazem dos elétricos uma alternativa cada vez mais atrativa para economizar e aumentar os ganhos.
Isso acontece porque veículos elétricos possuem menos componentes mecânicos sujeitos a desgaste, reduzindo gastos com manutenção corretiva e preventiva. Além disso, o custo da recarga elétrica tende a ser menor do que o abastecimento tradicional com gasolina ou etanol.
Para José Cláudio, a tendência é que a mobilidade elétrica se torne cada vez mais integrada às estratégias de desenvolvimento sustentável das cidades. “Os veículos elétricos dialogam diretamente com temas como qualidade do ar, sustentabilidade, redução de ruído urbano e eficiência energética. Não é apenas uma pauta automotiva. É uma pauta de desenvolvimento urbano e de qualidade de vida”, destaca.
Ao mesmo tempo, a expansão desse modelo traz desafios importantes para a engenharia e para o planejamento urbano brasileiro. Entre eles estão a necessidade de ampliação da infraestrutura de recarga, adaptação das redes elétricas, políticas públicas de incentivo e preparação das cidades para uma nova demanda energética.
A discussão sobre mobilidade elétrica integra uma série de debates acompanhados pela Sociedade Mineira de Engenharia sobre cidades inteligentes, transição energética, inovação tecnológica e sustentabilidade urbana. Para a entidade, o avanço dos veículos elétricos exige planejamento técnico e políticas públicas capazes de preparar as cidades para uma nova realidade energética e de mobilidade. “O crescimento da mobilidade elétrica exige planejamento. Precisamos discutir distribuição de energia, instalação de pontos de carregamento, modernização das redes elétricas e integração tecnológica. Tudo isso passa diretamente pela engenharia”, afirma José Cláudio.
José Cláudio defende que o Brasil possui potencial estratégico para participar dessa transformação de forma competitiva, especialmente pela capacidade energética e pela presença de minerais fundamentais para a indústria tecnológica.
“O Brasil tem condições de assumir protagonismo nessa transição energética. Temos capacidade de geração de energia renovável, conhecimento técnico e recursos minerais importantes para o desenvolvimento tecnológico ligado à mobilidade elétrica”, avalia.
Para a Sociedade Mineira de Engenharia, o debate sobre carros elétricos precisa ser tratado de forma ampla, considerando não apenas o veículo em si, mas todo o ecossistema de inovação, infraestrutura e sustentabilidade que acompanha essa transformação.
“A engenharia terá papel fundamental na construção dessa nova mobilidade. As cidades do futuro dependerão cada vez mais da integração entre tecnologia, energia, sustentabilidade e planejamento urbano”, conclui José Cláudio Nogueira Vieira.
O avanço dos carros elétricos mostra que a transição energética já começou. E, ao contrário do que parecia há alguns anos, ela não está mais restrita aos grandes centros internacionais. A mudança já faz parte da realidade brasileira e deve influenciar, cada vez mais, a maneira como as cidades, as empresas e as pessoas se relacionam com mobilidade, consumo de energia e desenvolvimento sustentável.