A China dá uma lição sobre a importância da engenharia no desenvolvimento nacional 

Em artigo, José Cláudio Nogueira Vieira é Engenheiro Civil relata experiências e análises decorrentes de sua viagem à China

Voltei recentemente da última de três viagens à China ocorridas no decorrer deste ano. Estive em Shenzen (ao lado de Hong Kong), em Chengdu, em Jinan e rapidamente em Beijing. Confesso que nenhuma fotografia, nenhum relatório e nenhum dado estatístico prepara um engenheiro brasileiro para o que é ver, de perto, a lógica de desenvolvimento daquele país. Há muito o que se falar do que conheci este ano nas viagens à China e vou resumir abaixo um dos temas que penso ser de maior importância.

Pude perceber nas viagens que não é somente a grandiosidade das obras em construção, das universidades e escolas técnicas, das estações de trem, de metrô, aeroportos que impressionam, mas a coerência estratégica do que já existe e do que está sendo executado: tudo, está organizado como um grande exercício de engenharia – física, social e tecnológica. Essa mentalidade, tão diferente do modelo norte-americano e consequentemente do modelo brasileiro, revela por que China está na dianteira global. Importante ressaltar, “está na dianteira global” e não “vai estar”. Tive a oportunidade de recentemente viajar também aos Estados Unidos e ao Canadá por diversas vezes e a diferença salta aos olhos. A China já é o “centro do mundo”. Não tenho dúvidas disto.

O país opera sob a lógica de “todos puxando para o mesmo lado”, a lógica está orientada através de metas, programas, planos, que tem como base estudos técnicos e científicos conduzidos por equipes de engenheiros capacitados para tal.

Durante minha passagem por Jinan, pude ver muitas pontes, viadutos, linhas férreas, obras habitacionais e viajei em trens de alta velocidade que conectam territórios distantes. Trata-se de investimentos estruturantes que reduzem a desigualdade social e integram o país facilitando e promovendo o desenvolvimento.

O que a China nos ensina não se restringe apenas a concreto, aço, túneis, pontes e viadutos. O planejamento das atividades, a distribuição de tarefas entre os entes nacionais e entre as empresas, com investimento coordenados, traz um resultado impressionante. A China nos ensina, ademais, que a engenharia e o pensamento com método científico, pode e deve ser uma política de Estado. Trata-se de realidade e não de utopia como tendemos a imaginar.

Temos, portanto, com base neste exemplo prático, real e bem-sucedido, todos os motivos para aplicar a engenharia como vetor de desenvolvimento nacional e não apenas sermos engenheiros de obras isoladas, por maior que estas sejam.

Voltei para o Brasil com uma convicção que compartilho aqui: não precisamos copiar o modelo chinês, mas precisamos aprender com sua disciplina estratégica e colocar em prática imediatamente este conhecimento. O Brasil tem dimensões continentais, desafios de logística, regiões isoladas, desigualdades profundas e uma imensa necessidade de infraestrutura social.

Créditos: acervo pessoal 
José Cláudio em visita a China trouxe debate sobre a lição que a engenharia pode ter com as práticas do país

Para superar estes desafios, dentre outros, é necessária a ampliação sistemática, contínua e com recursos suficientes dos cursos de formação em engenharia estimulando intensamente nossos jovens a ingressarem e se manterem na carreira. Isto deve ser providenciado através de um planejamento macro, um plano de Estado e não um projeto de Governo. Este é, sem dúvida, o ponto chave, a pedra angular para garantirmos o futuro do nosso (quase) eterno país do futuro.

Aprendi também na China que países não se tornam potências por acaso. Tornam-se potências porque levam a sério o que os sustenta: a educação e a ciência com qualidade e recursos abundantes, a responsabilidade com o planejamento com base na engenharia. Nosso povo tem talento, tem criatividade, tem diversidade técnica e cultural. Falta-nos transformar rapidamente tudo isto em projeto nacional. 

José Cláudio Nogueira Vieira é Engenheiro Civil, Vice Presidente da Sociedade Mineira de Engenheiros, Presidente do Conselho de Sócios da Clam e Diretor da Vila Construtora


Créditos: acervo pessoal 
José Cláudio em visita a China trouxe debate sobre a lição que a engenharia pode ter com as práticas do país

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