ELZO JORGE NASSARALLA – Referência técnica e de valor

A trajetória de Elzo Jorge Nassaralla dá um livro. A autobiografia está a caminho, fruto da memória privilegiada e, claro, de passagens incríveis que vivenciou

A história do Engenheiro do Ano 2025 começa além-mar, no Oriente Médio. Elzo Jorge Nassaralla é o quarto dos sete filhos de imigrantes libaneses que vieram para o Brasil em 1914, fugindo da Primeira Guerra Mundial. Jorge Nassaralla atravessou o Atlântico no porão de um cargueiro. “Meu pai desembarcou no porto do Rio de Janeiro com vinte centavos do nosso dinheiro no bolso. Um tio o esperava. Da Central do Brasil, embarcaram juntos em um trem. Após oito horas de viagem chegaram a Santos Dumont, na subida da Serra da Mantiqueira”, narra. 

O pai tornou-se vendedor, ainda nos anos 1910. Aprendeu a língua e a moeda local e, com veia empreendedora, se estabeleceu no comércio. Casou-se com a também libanesa Chicria Bittar. Elzo Jorge Nassaralla nasceu em 14 de junho de 1933, em Santos Dumont. Os filhos seguiram caminhos distintos: comerciante, educadora, médico, dentista, contadora e dois engenheiros. “Quanta alegria nas datas de formatura”, lembra ele. 

O patriarca também acompanhou as conquistas do filho, até partir aos 84 anos. Nassaralla lembra de quando assumiu como inspetor técnico no gabinete do diretor-geral do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), em 1964. “Meu pai estava na região do Saara, no Rio. Ele trazia mercadorias para vender em Minas. Só faltou subir em uma cadeira no meio da Rua da Alfândega e fazer um comício”, recorda o filho orgulhoso. 

Formado engenheiro civil e eletrotécnico na Escola de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora em 21 de dezembro de 1956, Elzo Nassaralla se preparou para as oportunidades que teve. Mostrou disciplina e interesse pela área desde os primeiros passos na vida acadêmica. Os livros só ficavam de lado às 21h de sábado, quando se preparava com colegas da república para o tradicional baile na cidade. Então, o guarda-pó dava lugar ao terno e o sapato bem lustrado. “Sempre soube que trabalharia na área rodoviária. Mas também gostava de dançar e de outros prazeres da juventude, claro”, explica ele, com um sorriso no rosto. 

O primeiro estágio foi na General Eletric, no Rio de Janeiro. No ano seguinte foi contratado como aprendiz pelo DNER. Em maio de 1957, foi admitido na antiga autarquia como engenheiro e percorreu cidades liderando projetos geométricos, de terraplanagem e de drenagem de rodovias em Minas Gerais. O jovem se destacou como fiscal de empresas que atuavam nas obras e contribuiu em um importante levantamento de dados essenciais à elaboração do edital de licitação para pavimentação da BR-4. Desenhava-se ali o primeiro grande feito de Nassaralla. 

Rio-Bahia

No final de 1959, uma equipe do DNER visitou o trecho e ele foi indicado como engenheiro-chefe do setor técnico da Comissão Especial de Obras da Rio-Bahia (Ceorb). Instalado em Governador Valadares, coordenou equipes em três frentes que cobriram uma extensão de 1.273 km, de Leopoldina (MG) até Feira de Santana (BA). “Os serviços foram realizados em bom ritmo até agosto de 1961, quando o então presidente Jânio Quadros renunciou e houve uma redução nos trabalhos”, conta o engenheiro, com riqueza de detalhes, aos 92 anos. 

Coube à Ceorb inaugurar a Rodovia Rio-Bahia em 15 de novembro de 1963, com a participação de 27 companhias brasileiras que retificaram e pavimentaram toda a extensão, e de outras cerca de 15 empresas que construíram pontes e viadutos. Vinte trabalharam em serviços topográficos e estudos geotécnicos ao longo de todo o segmento construído, além de empreiteiras que fizeram a sinalização da rodovia. E outras cinco construtoras ficaram responsáveis por executar obras em cinco hotéis ao longo do segmento total da estrada. 

Um episódio, em especial, marca a memória dessa grande obra de infraestrutura do país. Foi em 30 de dezembro de 1962, quando a equipe de Nassaralla liberou um trecho interrompido da via, após protestos e um congestionamento enorme. “Choveu muito na véspera da entrega e perdemos meses de trabalho de terraplanagem e de drenagem. Com muito empenho, conseguimos concluir a recuperação. Pessoas paravam junto ao canteiro de obras para nos cumprimentar e agradecer. Eles teriam um réveillon em família”, recorda o engenheiro. 

A Rio-Bahia é uma parte da BR-116, especificamente o trecho que liga o estado do Rio de Janeiro à terra do descobrimento, atravessando Minas Gerais. Por essa razão é conhecida por esse nome em muitos pontos de sua extensão. A BR-116 é uma das rodovias brasileiras a conectar os extremos Norte e Sul do país, percorrendo cerca de 280 cidades em dez estados. Hoje, grande parte dessa malha viária está concedida à iniciativa privada para administração, manutenção e melhorias. 

Grandes obras

Quem roda por Minas Gerais avança ao destino com mais segurança e conforto em razão de obras com a assinatura de Elzo Nassaralla. Três delas são fundamentais à mobilidade urbana, infraestrutura viária e escoamento da produção do estado: Anel Rodoviário de Belo Horizonte, BR-040 no sentido Rio de Janeiro e Fernão Dias, que liga a capital ao sul do estado. O engenheiro realizou outras tantas obras de Norte a Sul do país, desde o Rio Grande do Sul, passando pelos estados de Santa Catarina, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso até os primeiros traçados da Transamazônica, com todos os desafios de um empreendimento na década de 1970. 

Nassaralla também pavimentou caminhos no Equador, na estrada Quito – Guaiaquil, supervisionou obras em 18 aeroportos em Minas Gerais, executou centenas de quilômetros de ferrovias, além de acessos e avenidas em espaços urbanos. Liderou serviços especializados para controle tecnológico de solos, concretos e asfaltos nas obras de reassentamento de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, afetados pelo desastre de Mariana. “Fomos premiados pelo DNER como o melhor projeto de rodovia contratada para o acesso Sul do Rio de Janeiro, conhecido como Linha Vermelha”, recorda com entusiasmo. 

Em 5 de junho de 2001, o DNER deu lugar ao DNIT. Criado pela lei nº 10.233, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes é uma autarquia federal vinculada ao Ministério dos Transportes. A legislação reestruturou o sistema de transportes rodoviário, aquaviário e ferroviário do Brasil. 

Enecon

Boa parte desses projetos foram realizados pela Enecon, empresa criada por Nassaralla e outros sete engenheiros em 1968. Ismael Magalhães foi o primeiro presidente da empresa. Ele assumiu o posto em 1990 e permaneceu nessa liderança até 2020. Apesar de ter passado o bastão, ainda presta serviços à companhia como coordenador ou consultor, assinando projetos. 

O diretor Murilo de Mello Campos tem o fundador como referência técnica e de soft skills, habilidades comportamentais valorizadas hoje no mercado de trabalho, como capacidade de interagir, colaborar e liderar. “Nassaralla qualificou vários estagiários e profissionais que entraram na Enecon e hoje estão em posições destacadas em outras empresas. E quando nos encontramos em agendas do mercado, eles fazem questão de reforçar esse aprendizado”, afirma Campos.   

Hoje, cerca de 20% do quadro da Enecon é composto por profissionais com mais de 20 anos de empresa. Para o diretor, o baixo turnover é resultado dessa identidade dos colaboradores com os valores que Nassaralla sempre defendeu na empresa. “Ele ainda dá importantes contribuições à Enecon, pelo vasto conhecimento e a memória privilegiada, inclusive assinando projetos em editais que avaliam currículos técnicos de profissionais. Seu legado é inestimável”, afirma o diretor. 

Por sua trajetória e legado reconhecido, Elzo Jorge Nassaralla é o Engenheiro do Ano 2025, comenda concedida pela Sociedade Mineira de Engenheiros. A indicação partiu dos colegas da Comissão Técnica de Transporte da entidade. O coordenador da CTT, Nelson Dantas, destaca a presença carismática do homenageado. “Ele tem participação exemplar em nossas reuniões e é, para mim, um modelo inspirador. Em questões complexas, sempre aponta soluções já testadas e implantadas. Assim, prova que nosso ofício deve ser feito de maneira responsável, mas também leve, em agradecimento à dádiva que nos é dada de moldar o desenvolvimento do mundo”, assinala ele. 

O engenheiro eletricista e de telecomunicações Silvio Nazaré é o Chanceler da Medalha, entregue em cerimônia na SME. Líder de missões empresariais em diversas delegações em feiras internacionais, ele reverencia as qualidades do amigo. “Nassaralla une competência e sensibilidade, rigor técnico e generosidade pessoal. Sua carreira é marcada por realizações que ultrapassam os limites dos projetos e das obras: se estende às pessoas, às instituições e às causas que ele sempre abraçou com entusiasmo e espírito público”, afirma Nazaré. 

A família conhece bem essa força. Ele acompanha a esposa Dianaem viagens ao Espírito Santo, além de vibrar com as conquistas dos filhos Hélio ePaula e, claro, brincar com os netos. Nassaralla ainda acha tempo para escrever cartas à prefeitura e ao time do coração, o Fluminense. “Eu acho que meu saldo é positivo, mas poderia ter sido melhor. Escrevi e enviei às redações três artigos sobre a situação viária de Belo Horizonte. Não me ouviram e olha como está. Levo duas horas para fazer um trecho que cumpria em 25 minutos entre Nova Lima e a Enecon, no bairro Santo Agostinho”, brinca ele. 

Confira na entrevista abaixo outras informações que definem, em parte, o perfil do Engenheiro do Ano 2025. 

O início de sua trajetória como grande construtor marca também uma mudança: nos anos 1960 os pioneiros de órgãos como DNER, DNPVN e DERs abrigavam recém-formados. Técnicos capazes substituíram, então, políticos sem conhecimento técnico na área de engenharia. 

Sim, é verdade. Como eu, muitos saíram das escolas de engenharia e ingressavam nessas entidades. E lá aprendiam todas as atribuições e competências inerentes ao serviço público. É preciso lembrar que, por tradição em nosso país, muitos políticos ocupavam indevidamente esses cargos.  Com a liderança de técnicos capazes, como o economista e professor Roberto Campos, que estava cercado por ótimos profissionais, a administração pública sofreu um choque de realidade. 

Em 1965 foi criado o Grupo Executivo de Integração da Política de Transportes (Geipot), que deu a partida na área de infraestrutura. Foram contratadas, inicialmente, quatro empresas estrangeiras para estudar os transportes rodoviário, ferroviário e marítimo ao longo de nossa costa. No segundo ano de existência do órgão, mais cinco empresas estrangeiras vieram para o Brasil e completaram o levantamento nos demais estados do país. 

E muitos técnicos do Geipot seguiram carreira nos órgãos, ajudando no desenvolvimento do país. Aliás, é um cenário diferente do que vivemos antes desse período e que está sendo revisitado agora, com indicações políticas ou por amizade de pessoas sem qualificação técnica para cargos de gestão. Isso é temerário, especialmente em órgãos importantes onde o conhecimento sobre a engenharia é essencial. Há um desperdício de talentos, profissionais habilitados que poderiam dar contribuições efetivas. 

No meu tempo de DNER, por exemplo, eu tinha prazer em trabalhar com jovens que me eram recomendados, ou que eu mesmo descobri, para atuarem em setores estratégicos e termos equipes qualificadas prontas a responderem às demandas. Essa é a forma correta de se utilizar a estrutura do Estado sem desperdiçar dinheiro público.

O senhor construiu estradas em todas as regiões do país e no exterior. Qual o maior aprendizado de conviver com profissionais de tantos estados e de outros países?

Lembro de um episódio. Estava em uma viagem de Juiz de Fora ao Rio de Janeiro, ainda estudante, e caiu uma chuva muito forte na Serra de Petrópolis. Houve um grande deslizamento de terra, com árvores e pedras. E logo chegaram os engenheiros do DNER. Um deles, todo sujo de lama, se desequilibrou e caiu sobre a lama. Meus companheiros de viagem riram. Eu os repreendi na hora: “Gente, esse moço deve estar sem dormir e comer direito, entrou no barro com os operários para ajudá-los a resolver o problema. Todos estão trabalhando para liberar a rodovia e seguirmos viagem. A estrada vai estar aqui quando voltarmos, disponível para nós e muitos outros”. 

De fato, tenho ótimas lembranças de tantas obras e da convivência que a engenharia me proporcionou. De vez em quando recebo algumas mensagens que me emocionam (pega o celular e lê um trecho de uma). “Tive notícias de seu reconhecimento como Engenheiro do Ano, pela SME. Fiquei muito feliz em saber, é mais do que merecido. Guiei minha vida profissional pelas lições matutinas com o senhor na Enecon. Apliquei tudo que me ensinou sobre ética, profissionalismo e retidão de caráter”. Essas mensagens e situações dizem mais do que eu poderia sobre mim.

O senhor conviveu com grandes nomes da engenharia e da política. Entre tantos, qual lhe deixou a melhor impressão pelo senso de interesse público, da engenharia como valor coletivo?

Realmente trabalhei com grandes profissionais e gestores públicos em minha carreira. Destacaria dois. O primeiro foi José Lafayette Silviano do Prado, um engenheiro de Belo Horizonte formado no mesmo ano que eu, em 1956. Com um ano de formado, foi descoberto por Israel Pinheiro e designado diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap). Foi, inclusive, o responsável técnico pela execução da estrutura de concreto armado do corpo principal da Catedral de Brasília. Depois foi cedido e assumiu como diretor-geral do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem de Minas Gerais (DER-MG). Isso com 29 anos de idade. 

O outro nome que destacaria é Eliseu Resende, também engenheiro e formado em BH. Fez muitas obras com recursos do Banco Mundial e, depois, ganhou maior projeção como político, foi ministro, deputado federal e senador da República. Deixam um legado muito grande e uma representação enorme para a engenharia de Minas Gerais. 

A Enecon é uma de suas grandes realizações. Lá, princípios como ética, transparência, integridade, respeito e responsabilidade são fundamentadas. Em que contexto ela nasceu?

Foi um grande desafio criar, com meus colegas, uma empresa de consultoria na área de transportes na década de 1960. Na época, não havia mercado para garantir a existência de uma empresa nesse segmento. Hoje há várias. Na verdade, a Enecon foi criada por conta da atuação de engenheiros e um contexto político. A área estava enfim entregue àqueles pioneiros que assumiram os órgãos responsáveis pelo transporte de mercadorias e escoamento de safra. Eram profissionais qualificados em postos importantes no DNER, DNEF, DNPVN e nos departamentos estaduais, os DER. 

E foram esses técnicos brasileiros que criaram um sem-número de empresas. Consultorias que passaram a apresentar projetos de três modais de transporte a partir de nossos ensinamentos e daqueles engenheiros de várias nacionalidades. Essa convivência promoveu o desenvolvimento do país. 

O que o senhor diria aos futuros profissionais, em especial àqueles que trabalharão no segmento de infraestrutura?

É importante que os futuros profissionais valorizem o tempo de formação acadêmica, como eu fiz. Dedicação é fundamental para que o conhecimento. A sala de aula é importante, mas é preciso ir além, com muito esforço e disciplina. É importante que o aluno tenha uma visão humana da engenharia. Ela tem impacto no desenvolvimento do país e precisa ser valorizada de tal forma. Assim, teremos um Brasil mais justo, sem tanta desigualdade, com acesso a direitos como moradia, infraestrutura e transporte. Tudo isso passa pela engenharia. É a escolha que eu fiz.

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