Inovação e regeneração: o legado disruptivo de Vânia Andrade na mineração

Detentora de uma trajetória de vanguarda na indústria mineral, ela recebe o Prêmio SME Maura Menin 2026 por impulsionar ações e reflexões fundamentais para uma mineração ética, transparente e alinhada à Nova Economia 

Química por formação, engenheira por práxis e visionária por vocação, Vânia Lúcia de Lima Andrade, 75 anos, construiu uma das trajetórias mais influentes e transformadoras do setor mineral brasileiro. Ao longo de quase quatro décadas de atuação técnica e executiva na Vale — transitando por diversas áreas operacionais, centros de pesquisa e divisões estratégicas —, Vânia destacou-se como formuladora da gestão da inovação corporativa, participou da fundação do movimento Women in Mining Brasil (WIM Brasil) e coordenadora do Seminário de Mineração da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração, realizado pela Associação Brasileira de Mineração (ABM). 

Mais do que elevar a eficiência dos processos de beneficiamento mineral, sua contribuição central reside na construção de um legado humanista: a provocação contínua para que a mineração reescreva sua relação com o território, migrando da mera extração para a regeneração socioambiental, com participação ativa da sociedade. Em reconhecimento à sua densa contribuição à engenharia, à pesquisa e ao protagonismo feminino nas ciências exatas, Vânia Andrade é honrada com a Medalha de Honra ao Mérito Maura Menin. 

Concedida pela SME desde 2021, reconhece mulheres que se destacam por suas contribuições à engenharia, à ciência, à tecnologia e ao desenvolvimento sustentável, reafirmando o compromisso da engenharia mineira com a inovação, a equidade e o futuro.

Da infância observadora à liderança na mineração

A curiosidade científica de Vânia não nasceu nos laboratórios industriais, mas na cozinha de uma casa numerosa em Belo Horizonte. Filha de Wellerson Lourenço de Lima – professor de anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – e de Corina Gouvea de Lima – mulher leitora voraz que se dedicou à criação dos seis filhos – , a jovem Vânia cresceu em um ambiente onde o conhecimento era o tecido da vida cotidiana.

Com um olhar infantil profundamente observador, qualquer tarefa doméstica transformava-se em uma aula prática de biologia e química. Ver o pai desossar minuciosamente um frango para o almoço de domingo era, na verdade, uma lição de anatomia comparada, física muscular e precisão cirúrgica. 

“A minha casa era um laboratório vivo. Quando meu pai desossava um frango, não era só preparar a refeição; ele nos mostrava a articulação, os músculos, a perfeição da estrutura orgânica. Minha mãe, com seu amor incontestável pelos livros, alimentava nossa imaginação. Essa combinação entre a ciência do meu pai e a leitura da minha mãe formatou minha percepção: o mundo não era apenas para ser visto, era para ser compreendido em suas engrenagens mais profundas.”

Esse maravilhamento diante da matéria e de suas transformações conduziu Vânia naturalmente à graduação em Química. A fascinação pela química orgânica e pelas reações minerais abriu caminhos para que, em 1974, ela aceitasse o desafio de ingressar no Centro de Pesquisas da Vale, em Santa Luzia (MG). Em uma época em que o ambiente industrial era predominantemente masculino, sua sólida competência técnica a fez ascender dos ensaios de espectrometria de infravermelho à pós-graduação em Metalurgia Extrativa, assumindo posições de liderança no tratamento de minérios e na engenharia de processos.

Projeto Sossego – a Centelha do “Depois do Minerar”

Se o Centro de Pesquisas foi a escola de formação de Vânia, o Projeto Sossego, no Pará, representou o ponto de inflexão de sua consciência sobre o papel social da engenharia. Em 1998, integrando a equipe técnica responsável por viabilizar a exploração de cobre na Amazônia — metal fundamental para a transição energética —, Vânia desembarcou de helicóptero em uma área remota que guardava apenas os vestígios de um garimpo decadente.

O cenário era de extrema vulnerabilidade social: famílias vivendo em condições precárias e crianças assistindo a aulas em uma estrutura improvisada de taipa e palha de coqueiro. Ali, ao lado da parceria com a americana Phelps Dodge, nascia não apenas uma mina de grande porte, mas a fundação da cidade de Canaã dos Carajás.

Vânia ajudou a desenhar a transformação de uma área isolada em um polo urbano dotado de saneamento, hospitais, escolas de excelência e infraestrutura. Essa experiência trouxe a centelha que orientaria a segunda metade de sua carreira: a mineração só justifica sua existência se for um vetor inquestionável de desenvolvimento humano e se o planejamento do “uso futuro do solo” começasse antes mesmo da extração da primeira tonelada de minério.

Paralelamente aos desafios no Pará, a vida pessoal de Vânia passava por profundas reconfigurações. Casada em 1972 com Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, jogador de futebol da Seleção Brasileira, ela concilia a maternidade de dois filhos com viagens constantes e longas jornadas operacionais. Após 19 anos de união, veio o divórcio.

Longe de recuar, Vânia transformou a mudança conjugal em um catalisador de emancipação. Mudou-se para os Estados Unidos para cursar Gestão da Tecnologia no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT) entre 1996 e 1997. Essa imersão internacional reconfigurou seu modelo mental, trazendo para a Vale o conceito de inovação disruptiva e a criação de Comunidades de Prática em automação e tecnologia mineral. 

Vânia Andrade concedeu a entrevista a seguir, na qual analisa sem rodeios os dilemas, as verdades e o futuro da atividade no Brasil:

Como a sua carreira técnica se conecta com a urgência de a mineração reescrever sua história de confiança junto à sociedade?

Vânia Andrade: Ao longo da minha vida, percebi que o calcanhar de Aquiles da mineração não está mais na eficiência do beneficiamento de minério ou no ganho de produtividade — áreas em que a engenharia já entrega soluções extraordinárias. O verdadeiro desafio é o impacto social e ambiental. A licença social para operar deixou de ser um conceito abstrato para se tornar um risco real de negócio. Se a sociedade não confiar na nossa atividade, o setor não terá futuro. Precisamos mudar a mentalidade: a mineração precisa ser transparente, escutar genuinamente as comunidades e provar que o seu legado é superior ao mineral extraído.

Qual o papel da inovação e da tecnologia na reconciliação com o território?

Vânia Andrade: A inovação não serve apenas para automatizar processos ou colocar caminhões autônomos na mina. Ela deve ser a ferramenta central para mitigar danos e criar a economia circular dos rejeitos. Hoje, trabalhamos fortemente com conceitos como os tecnossolos — a recuperação de solos degradados através da ciência agrícola e resíduos industriais — e a destinação de grandes volumes de rejeito para novos usos industriais. Inovar é pensar a mina já planejando seu fechamento e o retorno daquele território para o cidadão em condições de criar novas opções de desenvolvimento. 

Há uma urgência por agências reguladoras mais estruturadas?

Vânia Andrade: O arcabouço legal brasileiro não é ruim em sua essência, mas a aplicação esbarra na fragilidade da fiscalização. As próprias mineradoras sérias desejam uma Agência Nacional de Mineração (ANM) forte, autônoma e bem equipada. Sem uma agência reguladora de estado, dotada de recursos e de capacidade fiscalizatória, o setor fica vulnerável a assimetrias e à perda contínua de credibilidade. Regulamentações recentes, como a Resolução nº 68 sobre o fechamento de minas, são avanços cruciais, mas dependem de monitoramento rigoroso.

A senhora construiu uma trajetória de independência incomum para as mulheres da sua geração. Como suas escolhas pessoais moldaram seu legado de liberdade?

Vânia Andrade: Tive a oportunidade e a coragem de assumir a minha liberdade profissional e intelectual. Minha ida ao MIT após a separação foi um divisor de águas. Entendi que a autonomia de pensamento não é negociável. Não abro mão dessa liberdade por nada na minha vida. Essa postura refletiu-se na minha atuação corporativa: nunca me dobrei a hierarquias rígidas nem ao comodismo técnico, apesar de ter tido a benesse de trabalhar algumas vezes com homens à frente de seu tempo. Essa mesma liberdade me permitiu olhar para a mineração com olhos críticos e propor mudanças profundas, mesmo quando alguns de meus pares achavam que inovação em mineração era desnecessária.

Sua atuação é marcadamente intersetorial — da química à engenharia, do WIM à coordenação na ABM. Como essa visão colabora para o avanço das carreiras STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática)?

Vânia Andrade: A ciência não pode funcionar em silos isolados. A química precisa conversar com a engenharia de minas, que por sua vez precisa dialogar com a agronomia, com a sociologia e com o direito ambiental. É essa transdisciplinaridade que enriquece a educação STEM. Quando atuamos em frentes como o Women in Mining ou na coordenação do Seminário da ABM, estamos criando pontes para que a nova geração de engenheiros e pesquisadores não pense apenas no produto final, mas na cadeia de valor completa e no impacto humano da tecnologia.

Falta às corporações enfrentarem o debate estrutural sobre a maternidade e a permanência da mulher no ambiente de trabalho. As empresas precisam criar mecanismos reais de suporte e flexibilidade para que a executiva ou a engenheira de campo não tenha que escolher entre a carreira e a família.

Na sua experiência, a liberdade foi um ativo na sua carreira?  

Vânia Andrade: Para uma mulher da minha geração, conquistar a própria liberdade não foi um evento simples, foi um processo diário de emancipação do modelo mental que nos era imposto. Quando me vi separada, entendi que aquele momento não era uma perda, mas a abertura de uma porta para o mundo. Ir para o MIT, morar fora e mergulhar em uma nova visão de tecnologia me deu a dimensão de que eu podia — e devia — ter autonomia sobre o meu pensamento e os meus passos.

Essa liberdade do meu feminino reconfigurou não só quem eu era em casa, mas a forma como me posicionei na carreira. Aprendi a não me curvar ao comodismo técnico nem às hierarquias ultrapassadas. Hoje, mesmo aposentada da vida executiva tradicional, essa mesma busca por autonomia continua sendo o meu motor. Não estou parada porque escolhi estar ativa, provocando conversas difíceis e ajudando a redesenhar o futuro do setor. É essa liberdade inegociável que me dá a coragem de continuar construindo o meu legado.

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