Janeiro Branco: saúde mental deve ser prioridade nos negócios

Janeiro Branco é um convite à reflexão sobre a saúde mental como parte essencial da vida, do trabalho e da construção de um futuro mais equilibrado. Em um contexto de transformações aceleradas, pressão por resultados e desafios crescentes na gestão de pessoas, o cuidado com a saúde emocional deixou de ser um tema individual para se tornar uma agenda estratégica das organizações

Para a engenharia, isso significa mais qualidade técnica, segurança, produtividade, inovação e responsabilidade social. Ao colocar as pessoas no centro, empresas e instituições fortalecem sua capacidade de gerar valor econômico de forma sustentável.

É nesse contexto que a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME) convidou Davi Braga, presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) para uma entrevista sobre impacto da saúde mental no desempenho das organizações, o clima de trabalho, os resultados financeiros, a atração de talentos e a gestão de riscos legais. Confira: 

1. Qualidade e produtividade

Como o investimento em saúde mental dos colaboradores impacta diretamente a qualidade do trabalho, a produtividade e a redução de erros no dia a dia das empresas?

Investir em saúde mental melhora qualidade e produtividade porque reduz um custo invisível do cotidiano das organizações: o presenteísmo, quando a pessoa está fisicamente presente, mas rende abaixo do seu potencial; o absenteísmo; e a alta rotatividade. Esses fatores se traduzem em retrabalho, atrasos e aumento de erros na operação.

No Brasil, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) estimou, em 2023, que problemas relacionados à saúde mental podem gerar uma perda de até 4,7% do PIB, o equivalente a cerca de R$ 282 bilhões. Isso mostra que o impacto não é apenas humano, mas também econômico e operacional.

Por trás desses números existem pessoas lidando com ansiedade, exaustão, insônia, irritabilidade e perda de foco, o que compromete a confiança, o senso de pertencimento e a qualidade das relações de trabalho. Quando a saúde mental se deteriora, a empresa perde criatividade, colaboração, capacidade de decisão sob pressão e disposição para inovar. Em ambientes mais saudáveis, com liderança preparada, metas claras e carga de trabalho sustentável, as pessoas recuperam energia emocional para pensar melhor, se comunicar com mais clareza e aprender com menos medo. O resultado aparece no dia a dia: menos conflitos, menos retrabalho, mais consistência nas entregas e um clima de respeito.

2. Ambiente e clima organizacional

Quais mudanças concretas no clima e nas relações de trabalho costumam ser observadas em empresas que adotam políticas estruturadas de cuidado com a saúde mental?

Empresas que adotam políticas estruturadas de cuidado com a saúde mental costumam observar mudanças rápidas e concretas no clima organizacional. Há aumento da confiança, comunicação mais clara e relações mais respeitosas e colaborativas.

Quando existe segurança psicológica, as pessoas deixam de se proteger o tempo todo, fazem mais perguntas, discordam sem medo e trazem problemas antes que eles se tornem crises. O resultado é menos ruído e mais alinhamento. O relatório da Great Place to Work Brasil (2023) mostra que organizações com alto índice de confiança apresentam maior engajamento, mais satisfação e menos conflitos internos e comportamentos tóxicos.

No campo das relações, políticas claras — como liderança preparada, gestão equilibrada da carga de trabalho e canais de escuta — reduzem tensões, microconflitos e desgaste emocional, fortalecendo empatia e cooperação. Estudos da Harvard Business Review indicam que equipes com maior segurança psicológica apresentam menor rotatividade e maior colaboração, enquanto pesquisas brasileiras da Fundação Dom Cabral mostram melhora consistente no clima e na maturidade das relações onde há práticas de bem-estar emocional.

3. Resultados financeiros e competitividade

Existe relação mensurável entre investimento em saúde mental, redução de turnover e aumento de lucratividade? Como isso se reflete nos indicadores de desempenho das organizações?

Existe, sim, uma relação direta e mensurável. Ambientes que cuidam da saúde mental reduzem exaustão, conflitos e a desconexão silenciosa que leva bons profissionais a pedir demissão. A Gallup, em seu relatório State of the Global Workplace (2023), aponta que equipes com maior bem-estar e engajamento alcançam até 18% mais produtividade e menor rotatividade.

Cada desligamento evitado preserva conhecimento crítico, continuidade de projetos e relações estratégicas, além de reduzir custos com rescisões, recrutamento, integração e curva de aprendizagem. No cotidiano, o impacto aparece de forma clara: pessoas que dormem melhor, se concentram mais, erram menos e voltam a sentir orgulho do que fazem; líderes que deixam de atuar apenas no modo “apagar incêndios” e passam a orientar com mais clareza; equipes que pedem ajuda sem medo e enfrentam problemas antes que se agravem.

4. Atração, engajamento de talentos e reputação

De que forma programas de saúde mental influenciam a capacidade da empresa de atrair e reter talentos, especialmente entre jovens profissionais e lideranças qualificadas?

Programas estruturados de saúde mental tornaram-se decisivos para atrair e reter talentos, especialmente entre jovens profissionais e lideranças qualificadas. Essas gerações avaliam o ambiente emocional da empresa com o mesmo peso que salário e oportunidades de carreira.

A pesquisa Global Gen Z and Millennial Survey da Deloitte (2023) mostra que mais de 60% desses profissionais considerariam deixar um emprego caso ele afetasse negativamente sua saúde mental. Na prática, iniciativas como liderança preparada, canais de escuta, prevenção ao burnout e apoio psicológico fortalecem a confiança, o pertencimento e o engajamento.

No Brasil, estudos da Fundação Dom Cabral indicam que empresas com práticas consistentes de saúde mental apresentam melhor clima, maior adesão aos valores organizacionais e lideranças mais bem avaliadas. Além disso, há um efeito reputacional importante: em um mercado cada vez mais transparente, cuidar da saúde mental fortalece a marca empregadora e sinaliza maturidade de gestão e visão de longo prazo.

5. Legislação, compliance e prevenção de riscos

Como a legislação trabalhista e as normas de saúde e segurança têm pressionado as empresas a olhar com mais atenção para a saúde mental, e quais riscos correm aquelas que ignoram essa agenda?

A saúde mental deixou de ser um tema subjetivo e passou a ser reconhecida como risco do trabalho. No Brasil, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou a Norma Regulamentadora nº 1, em agosto de 2024, exigindo que as empresas incluam a avaliação de riscos psicossociais no gerenciamento de Saúde e Segurança do Trabalho.

Os dados reforçam essa urgência. Segundo informações divulgadas pela ONU Brasil, os benefícios por incapacidade temporária associados à saúde mental saltaram de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024. Ignorar essa agenda expõe as empresas a riscos legais, autuações, ações do Ministério Público do Trabalho, aumento de reclamatórias trabalhistas e pedidos de indenização por dano moral.

Na prática, problemas que começam pequenos — como crises de ansiedade, burnout silencioso ou lideranças que pressionam além do limite — podem se transformar em prejuízos humanos, financeiros e reputacionais significativos. Cuidar da saúde mental é, portanto, uma estratégia de prevenção, responsabilidade e sustentabilidade organizacional. 

David Braga – CEO, board advisor e headhunter da Prime Talent Executive Search, empresa de busca e seleção de executivos, presente em 30 países e 50 escritórios pela Agilium Group. É conselheiro de Administração e professor pela Fundação Dom Cabral, Presidente da ABRH-MG, VP do Conselho de RH da ACMinas e Presidente do Conselho de Administração da ONG ChildFund Brasil

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