Sociedade Mineira de Engenharia participa da Comissão de Despoluição e acompanha as ações de revitalização
Às margens de uma das paisagens mais icônicas do Brasil, reconhecida pela UNESCO em 17 de julho de 2016 como Patrimônio Cultural da Humanidade, a Lagoa da Pampulha vive um momento inédito em décadas. Os dados do relatório técnico mais recente, elaborado pela Hydroscience com base em análises regulares da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) e da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), indicam que o Índice de Qualidade da Água (IQA) atingiu a marca de 82 em uma escala de cem: classificação “ótima” segundo os padrões estabelecidos para a Classe 3.
A Sociedade Mineira de Engenharia (SME) participa da Comissão de Despoluição da Lagoa da Pampulha desde a criação dela pela PBH. O grupo técnico multidisciplinar acompanha as estratégias de limpeza e valida os resultados do monitoramento. A engenheira civil Patrícia Boson, especialista em recursos hídricos e representante da SME na comissão, junto à também especialista Maria de Lourdes Pereira, acompanha o desempenho técnico dos remediadores aplicados na lagoa, em especial o Phoslock:
“O lantânio se liga quimicamente ao fósforo, formando um composto mineral estável e insolúvel, tornando-se indisponível para organismos aquáticos e, portanto, sem interação biológica relevante. Não há evidências de impactos adversos à fauna ou à flora da lagoa, conforme apontam estudos e o histórico de aplicação da tecnologia”, explica a engenheira.
De acordo com Keyliane Paganni, diretora de segurança e meio ambiente da Pro-Civitas Associação dos Moradores dos Bairros São Luís e São José, o cenário está melhor que em 2016, quando não havia tratamento integrado: “Para quem frequenta a Pampulha, os efeitos já são perceptíveis. Está mais agradável fazer as atividades esportivas e o turismo convive hoje com um ambiente visualmente melhor e seguramente mais saudável, diferente de décadas anteriores”, garante.
O que o monitoramento revela
O sistema de acompanhamento da lagoa é baseado em coletas regulares em diferentes pontos e profundidades. São avaliados parâmetros físicos, químicos e biológicos, como fósforo, oxigênio dissolvido, turbidez e presença de bactérias, o que permite classificar a água e acompanhar a evolução do processo de recuperação ambiental ao longo do tempo.
De acordo com o estudo, os avanços são resultado de um conjunto de ações contínuas de tratamento iniciadas em 2016, com destaque para o controle do fósforo e a redução expressiva de cianobactérias, que antes formavam manchas e odores perceptíveis em toda a orla.
“O que estamos vendo é uma mudança real de patamar. A lagoa saiu de uma condição crítica para um ambiente com qualidade controlada, ainda que sob pressão constante por causa da entrada diária de esgoto na Pampulha. Se houvesse saneamento total, os resultados seriam ainda melhores”, pontua Tiago Finkler Ferreira, CEO da Hydroscience, empresa integrante do consórcio responsável pelo tratamento e única distribuidora do Phoslock no Brasil.
10 anos de Patrimônio da Humanidade
Em julho de 2026, o Conjunto Moderno da Pampulha celebra uma década de reconhecimento pela UNESCO, uma conquista que torna ainda mais urgente o compromisso com a saúde ambiental da lagoa. Afinal, foi justamente a apresentação de um projeto de despoluição um dos requisitos exigidos pelo organismo internacional para a concessão do título, em 2016.
Dez anos depois, os avanços são inegáveis. Porém, o lançamento irregular de esgoto, ligações clandestinas, a carga de poluição difusa intensificada no período chuvoso e o passivo histórico de sedimentos contaminados no fundo da lagoa seguem como desafios não resolvidos.
“A Pampulha não é um problema ambiental isolado. Ela é um indicador sistêmico da cidade e reflete diretamente como Belo Horizonte enfrenta desafios de saneamento, urbanização e desigualdade. A solução definitiva da lagoa passa, necessariamente, por resolver essas questões na origem”, afirma Marcelo Moretti, professor da UFMG e especialista em limnologia e ecologia aquática urbana.
Para a Sociedade Mineira de Engenharia, a recuperação da Lagoa da Pampulha demonstra a importância do acompanhamento técnico e da integração entre poder público, comunidade científica e sociedade civil. Os avanços alcançados nos últimos dez anos mostram que a engenharia tem papel fundamental na preservação de um dos maiores patrimônios culturais e ambientais de Minas Gerais, mas também evidenciam que a consolidação desses resultados dependerá da continuidade dos investimentos em saneamento e gestão ambiental.