
Adriana Maria Tonini é engenheira civil e membro do Conselho Deliberativo da SME. Preside a Associação Brasileira de Educação em Engenharia (ABENGE) e é professora da UFOP
No Brasil, as mulheres são maioria no ensino superior, representando 59,9% dos concluintes, enquanto os homens correspondem a 40,1%. A distribuição da participação feminina por área de formação é a seguinte, de acordo com dados do MEC/INEP (2023).
- Educação: 76,3% dos concluintes são mulheres;
- Saúde e bem-estar: 72,9% dos concluintes são mulheres;
- Ciências sociais e correlatas: 70,7% dos concluintes são mulheres;
- Engenharia e áreas correlatas (STEM): 33,8% dos concluintes são mulheres;
- Ciência da computação e tecnologia da informação e comunicação (STEM): 17,5% dos concluintes são mulheres.
Outro dado relevante é sobre as escolhas profissionais das meninas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2023. As mulheres representaram 51,9% dos candidatos no Enem. No entanto, apenas 18% das mulheres optaram por cursos de Engenharia e 12% por cursos de Tecnologia. Por outro lado, mais de 70% se inscreveram em cursos das áreas de Saúde e Ciências Sociais.
Segundo Granovskiy (2018), o termo STEM refere-se ao ensino e aprendizado, abrangendo desde a pré-escola até o pós-doutorado, nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática. Além disso, o conceito inclui tanto atividades acadêmicas formais, como aquelas realizadas em salas de aula, quanto informais, como programas extracurriculares. Assim, a formação acadêmica das mulheres nas áreas de Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemáticas é amplamente conhecida como STEM.
Muitos países ao redor do mundo, como os Estados Unidos e Israel, têm implementado programas destinados a incentivar a formação de mulheres nas áreas de STEM. A importância dessas iniciativas está alinhada à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, da ONU (2015), que contempla 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Segundo relatório da UNESCO (2018), as áreas de STEM e inovação ocupam uma posição central na Agenda 2030, sendo instrumentos para alcançar outros ODS, com destaque para o ODS 4, que trata de educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e para o ODS 5, que aborda igualdade de gênero e empoderamento das meninas e mulheres.
Esses objetivos incluem metas específicas para aumentar o acesso à educação e às tecnologias de STEM e reduzir as disparidades de gênero. A Declaração de Incheon e o Marco de Ação para a implementação do ODS 4 apontam que alcançar qualidade e inovação requer “o fortalecimento da ciência, da tecnologia e da inovação”, destacando a necessidade de oferecer bolsas de estudo para que meninas e mulheres ingressem nos campos de STEM. Complementando essa perspectiva, a Agenda de Ação de Adis Abeba, que estabelece um marco global para o financiamento do desenvolvimento sustentável, reforça o chamado aos países para “ampliar investimentos na educação em ciência, tecnologia, engenharia e matemática […] garantindo acesso igualitário para mulheres e meninas”.
Há uma evidente sub-representação das mulheres no sistema científico e tecnológico, caracterizada pelo baixo número de mulheres em determinadas áreas ou subáreas do conhecimento, como as ciências exatas e a engenharia. No Brasil, esse fenômeno pode ser observado em dois tipos de segregação feminina: a horizontal, que se refere à concentração de poucas mulheres em áreas específicas do conhecimento, e a vertical, que diz respeito à sub-representação feminina em posições de prestígio e poder, mesmo em carreiras tradicionalmente consideradas femininas.
Além disso, há um entendimento generalizado nas empresas de que a ascensão na hierarquia exige disponibilidade de tempo e dedicação integral à carreira — condições que, muitas vezes, são atribuídas à natureza masculina, reforçando as disparidades de gênero.
Mulheres representam metade da população mundial, mas ainda estão sub-representadas nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Isso significa que uma parcela significativa da população está excluída de contribuir com soluções inovadoras para os problemas enfrentados por nossa sociedade. Com essa exclusão, perdemos a oportunidade de construir um país economicamente mais desenvolvido e socialmente mais participativo. Além disso, ainda estamos longe de alcançar igualdade de oportunidades em aspectos como crescimento profissional, equiparação de cargos e salários no mercado de trabalho.
Em 2023, a Força Meninas (https://frmeninas.com.br/) realizou a pesquisa ‘Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro’, com mais de 1.400 garotas de todas as regiões do Brasil. Os resultados revelaram:
- 60% das meninas se sentem desmotivadas a seguir carreiras em STEM;
- 45% acreditam que essas profissões são ‘predominantemente masculinas’;
- 62% das meninas afirmam não conhecer pessoas que trabalham em áreas de STEM.
A falta de representatividade, encorajamento e oportunidades continua sendo uma das principais barreiras enfrentadas pelas garotas atualmente. O grafico a seguir ilustra a falta de ações nas escolas da educação básica pública para incentivo nas áreas de STEM: Participação em atividades de DV em STEM: competições tecnológicas, olimpíadas, feiras e mostras científicas (pesquisa realizada pela autora com 65 discentes da Educação Básica de MG em 2023)
Motivar vocações nessas áreas não é uma tarefa simples, especialmente em campos tradicionalmente considerados “duras”, onde o “gostar de números” entre meninas tende a ser desconstruído desde cedo — seja no ambiente familiar, escolar ou na vida cotidiana. Para despertar o interesse pelas carreiras STEM, é fundamental que crianças sejam incentivadas desde a educação infantil, por meio de jogos que estimulem a criatividade. Entretanto, estudos identificaram um acesso diferenciado que favorece os meninos, concluindo que as experiências educacionais iniciais têm um impacto positivo na escolha posterior de cursos de ciências e matemática, além de influenciar nas aspirações de carreira dos estudantes (SIMPSON, FLEER, KERMANI).
Para incentivar meninas a explorarem as áreas de formação em STEM, é fundamental realizar ações desde o ensino fundamental, utilizando experimentos, práticas e jogos que apresentem a realidade dessas áreas de maneira envolvente e atrativa. Para aumentar a participação feminina na educação e nas carreiras em STEM, são necessárias respostas holísticas e integradas que abranjam diversos setores e envolvam meninas e mulheres na identificação de soluções para desafios persistentes, permitindo que elas participem plenamente, se desenvolvam significativamente e contribuam para a construção de um mundo mais inclusivo, igualitário e sustentável (UNESCO, 2018).
É evidente que ainda há um longo caminho a ser percorrido para ampliar a participação das mulheres nas áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Nesse sentido, projetos na educação básica, para desconstruir o que meninas e jovens mulheres tendem a erroneamente acreditar: que não são tão capazes quanto os meninos, devido a uma criação social de estereótipos, desempenham um papel fundamental para que as meninas possam conhecer, explorar e despertar interesse por essas áreas e aumentar o número de mulheres em carreiras científicas, tecnológicas e de inovação, contribuindo para atender às demandas profissionais nesses setores.
REFERÊNCIAS
GRANOVSKIY, Boris. Science, tecnology, engineering, and mathematics (STEM) education: na overview. Congressional Research Service, June, 2018. Disponível em: https://fas.org/sgp/crs/misc/R45223.pdf. Acesso em: 10 fev. 2020.
MEC/INEP. Censo da Educação Superior 2023. Brasília: Diretoria de Estatísticas Educacionais.
OECD, The ABC of Gender Equality in Education: Aptitude, Behaviour, Confidence, PISA, OECD Publishing, Paris, 2015, https://doi.org/10.1787/9789264229945-en.
Simpson, A.; Linder, S. M. The indirect effect of children’s gender on early childhood educators’ mathematical talk. Teaching and Teacher Education, v. 54, p. 44-53, 2016.