Seminário Internacional de Reciclagem Veicular debate sustentabilidade, economia circular e desenvolvimento do setor automotivo.

No dia 13 de março de 2026, Belo Horizonte sediará o Seminário Internacional de Reciclagem Veicular, um encontro estratégico voltado à discussão dos avanços, desafios e oportunidades do setor em Minas Gerais e no Brasil. O evento será realizado no EXPOMINAS e reunirá autoridades, especialistas nacionais e internacionais, representantes do poder público, empresas e instituições ligadas à cadeia automotiva, com foco em sustentabilidade, economia circular, inovação tecnológica e desenvolvimento do setor de desmontes veiculares.

A iniciativa é promovida pela JICA, pela ACCTBJ e pelo Escritório do Cônsul Honorário do Japão em Belo Horizonte, com apoio do Festival do Japão em Minas. O seminário se consolida como um espaço qualificado de intercâmbio de experiências e boas práticas internacionais, contribuindo para o aprimoramento de políticas públicas, marcos regulatórios e modelos de negócios voltados à reciclagem veicular e à transição para uma economia de baixo carbono.

A realização do encontro ocorre em um momento estratégico para o fortalecimento do Arranjo Produtivo Local (APL) da Reciclagem Veicular em Minas Gerais, uma iniciativa da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico de MG, ampliando o diálogo entre instituições, especialistas e o setor produtivo sobre soluções estruturantes, rastreabilidade de peças, conformidade ambiental e inovação na gestão de resíduos automotivos. A agenda também reforça a relevância da cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável da cadeia de desmontes, promovendo maior integração entre conhecimento técnico, governança institucional e competitividade econômica.

Indicação de Wilson Leal para a Governança do APL

Nesse contexto de fortalecimento institucional do setor, destaca-se a indicação de Wilson Leal, Assessor de Projetos Especiais da SME, para integrar a Governança Institucional do Arranjo Produtivo Local (APL) da Reciclagem Veicular, a convite da ADLEX/MG. A participação representa o reconhecimento de sua trajetória técnica, capacidade de articulação institucional e contribuição estratégica para o desenvolvimento do setor de desmontes veiculares, com impactos relevantes nas dimensões econômica, ambiental e regulatória em Minas Gerais.

Sua atuação na governança do APL dialoga diretamente com os temas centrais do seminário, ao fortalecer a construção de diretrizes estratégicas, fomentar a integração entre os diferentes atores do ecossistema e impulsionar iniciativas alinhadas à economia circular e à sustentabilidade ambiental.

Artigo de Wilson Leal e Juliana Leite sobre reciclagem veicular

Como contribuição qualificada ao debate promovido pelo seminário, Wilson Leal é coautor do artigo “Reciclagem veicular: sustentabilidade, economia circular e inovação industrial”, ao lado de Juliana Leite. O texto apresenta uma análise abrangente sobre o papel estratégico da reciclagem veicular como pilar da economia circular no setor automotivo, destacando seus impactos ambientais, econômicos e sociais.

O artigo evidencia que a reciclagem de veículos em fim de vida útil envolve etapas estruturadas de descontaminação, desmonte e separação de peças reutilizáveis, bem como a classificação de materiais como metais, plásticos e vidros para reciclagem contribuindo para a proteção ambiental e geração de novos produtos e componentes. Esse processo reduz o consumo de recursos naturais e energia, contribui para a geração de empregos, fortalece cadeias produtivas regionais e mitiga impactos ambientais associados à produção de novos materiais.

Os autores também ressaltam o potencial do setor para a prevenção de problemas de saúde pública, ao evitar o acúmulo de veículos abandonados em vias e terrenos, além de apresentar dados nacionais e internacionais que demonstram o expressivo potencial econômico da reciclagem veicular. A análise aborda ainda os avanços institucionais em Minas Gerais, a importância da regulamentação do Programa de Reciclagem de Resíduos Veiculares (PRRV) e os desafios para ampliar a destinação ambientalmente adequada dos veículos em fim de vida útil no país.

A publicação dialoga diretamente com os temas centrais do Seminário Internacional de Reciclagem Veicular, contribuindo para qualificar o debate sobre sustentabilidade, inovação industrial e economia circular no setor automotivo, além de posicionar Minas Gerais como referência nacional na estruturação de políticas e práticas voltadas à reciclagem veicular.


👉 Leia abaixo artigo completo e aprofunde-se nas discussões, dados e perspectivas para o fortalecimento da reciclagem veicular e da economia circular em Minas Gerais e no Brasil.



Reciclagem veicular: sustentabilidade, economia circular e inovação industrial

Juliana Leite é administradora de empresas e diretora da Adlex/MG. Lidera projetos voltados à economia circular e inovação na reciclagem automotiva, em parceria com o Cefet-MG. 

Wilson Leal é engenheiro eletrônico pela Escola Politécnica da USP. Exerce as funções de Engagement Director da Goldratt Consulting e atua como assessor para projetos especiais na SME.

A reciclagem veicular consiste no processo de desmontagem e reaproveitamento de materiais de veículos em fim de vida útil, configurando-se num dos pilares da economia circular no setor automotivo. Esse processo envolve etapas como descontaminação, desmonte e separação de peças reutilizáveis, bem como a classificação de materiais como metais, plásticos e vidros para reciclagem, contribuindo para a proteção ambiental e geração de novos produtos e componentes. 

Os benefícios da reciclagem veicular ultrapassam a esfera ambiental, incluindo a redução do consumo de recursos naturais e energia, uma vez que a transformação de sucata em matéria-prima e o reúso de peças evita a produção de novos materiais, diminuindo impactos industriais e ambientais. Além disso, promove a geração de empregos e movimentação econômica, fortalecendo cadeias produtivas regionais e estimulando o desenvolvimento da economia circular. 

A reciclagem veicular desempenha papel relevante na prevenção da poluição e na promoção da saúde pública, inibindo o acúmulo de veículos abandonados em vias e terrenos, que frequentemente tornam-se criadouros do mosquito transmissor da dengue e de outras doenças. Considerando que existem milhares de veículos abandonados ou apreendidos em todo o país, essa situação reforça a urgência de políticas estruturadas para o reaproveitamento e destinação ambientalmente adequada desses bens.

A experiência internacional e os resultados da indústria siderúrgica brasileira evidenciam o potencial econômico da reciclagem veicular. Nos Estados Unidos, a reciclagem de veículos representa cerca de 20% da produção total de aço, com aproximadamente 14 milhões de toneladas reaproveitadas anualmente. 

No Brasil, a Gerdau, maior recicladora da América Latina, processa cerca de 11 milhões de toneladas de sucata ferrosa por ano, e cada tonelada reaproveitada evita a emissão de 1,5 tonelada de CO₂, sendo que aproximadamente 70% do aço produzido tem origem em sucata e retorna ao mercado na forma de novos produtos. Segundo a Renova Ecopeças (Grupo Porto Seguro), 85% das peças que compõem um veículo são reaproveitáveis, 10% são recicláveis e apenas 5% necessitam de descarte ambientalmente correto. Isso evidencia o grande potencial do setor para ampliar o reaproveitamento de materiais e reduzir impactos ambientais. 

Nos Estados Unidos a reciclagem veicular já responde por 20% da produção de aço, com cerca de 14 milhões de toneladas provenientes de carros triturados. Esse resultado é possível porque 95% dos veículos em fim de vida útil nos EUA, e 99% no Japão, são reciclados. No Brasil, por outro lado, apenas 1,5% da frota recebe destinação adequada, apesar de termos cerca de 48 milhões de veículos circulando e 2 milhões de carros chegando ao fim do ciclo anualmente.

A Stellantis, ao inaugurar neste ano em Osasco (SP) o primeiro Centro de Desmontagem Veicular Circular Autopeças, tornou-se a primeira montadora que entra no mercado de reciclagem estruturada de veículos sinistrados, em fim de vida útil ou fora de uso – inclusive de outras marcas. O mercado de peças usadas no Brasil apresenta um potencial significativo, com faturamento estimado em R$ 2 bilhões por ano, refletindo a crescente valorização do reúso de componentes automotivos.

Segundo o prof. Daniel Castro, fundador do Centro Internacional da Reciclagem Automotiva (Cira), instalado no Cefet-MG com apoio da Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica),  caso o país alcance a meta de reciclar dois milhões de veículos por ano – aproximadamente 4% da frota circulante -, os benefícios seriam significativos, incluindo a economia de energia elétrica, a geração de milhões de créditos de carbono, fortalecendo a agenda de transição energética e descarbonização industrial e a economia de milhões de toneladas de minério de ferro. Atualmente, 1,5% da frota brasileira é reciclada anualmente, enquanto países como Estados Unidos, Japão e diversas nações europeias atingem índices entre 4% e 6%. 

O prof. Daniel desenvolveu o Selo Verde, que quantifica de forma científica esses benefícios, medindo os recursos naturais e energia poupados, e quantifica também a eliminação de elementos poluentes (resíduos sólidos, efluentes líquidos e emissões gasosas) que deixam de ser lançados no planeta através da reciclagem veicular. Esse selo já está sendo usado por empresas de vários estados, constituindo um diferencial de mercado na cadeia produtiva e objeto de estudo para a criação de incentivos fiscais pelos governos estaduais para as empresas que priorizam o tema ambiental. 

Em Minas Gerais, o setor de desmontes e reciclagem veicular recebeu significativo impulso com a criação do Grupo de Trabalho de Reciclagem Veicular (GT-RV) pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sede), em junho de 2024, demonstrando a sensibilidade do governo estadual ao reconhecer o potencial econômico e ambiental do setor e a necessidade de remoção de barreiras regulatórias e fiscais, através de ações eficientes de órgãos do governo de MG em conjunto com a Adlex, SME, Stellantis, Fundep e Plus Enga.  

Nesse contexto, a Associação dos Desmontes Veiculares e Peças Recicladas de Minas Gerais (Adlex-MG) desempenha papel central, com apoio decisivo da Sociedade Mineira de Engenheiros (SME), desde a realização do seminário Reciclagem e Sustentabilidade na Indústria Automobilística, em junho de 2023, na sede da entidade. Dessa forma, a SME cumpre sua missão quando valoriza a inovação como fator de desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que se compromete com os desafios imediatos da sustentabilidade.

Fundada em 2018 pelo empresário do setor Marco Antônio da Silva, a Adlex surgiu da necessidade de apoiar o setor na implementação da Lei Federal nº 12.977/2014, conhecida como Lei do Desmonte, em Minas Gerais. Atualmente, a entidade reúne mais de 80 empresas associadas e credenciadas junto ao Detran, unindo forças com a SME para garantirem representatividade, credibilidade e influência institucional junto ao setor, consolidando seu papel como articuladora de políticas públicas, boas práticas de rastreabilidade e advocacy junto ao governo, com resultados concretos e reconhecidos por seus associados.

Legislação

A Lei nº 23.592/2020, que institui o Programa de Reciclagem de Resíduos Veiculares (PRRV) em Minas Gerais, estabeleceu bases para uma política pública pioneira no país, voltada à reciclagem veicular estruturada e à profissionalização do setor. O programa fomenta a economia circular ao estimular a destinação ambientalmente correta de veículos e a reintrodução de materiais na cadeia produtiva; gera emprego e renda ao ampliar atividades de desmonte; reduz impactos ambientais ao evitar descarte irregular de resíduos perigosos; e fortalece a segurança pública ao criar mecanismos de rastreabilidade e controle sobre veículos baixados. 

A implementação plena do PRRV depende de sua regulamentação, que é essencial para definir regras operacionais, metas e responsabilidades entre órgãos públicos e iniciativa privada, sendo urgente para viabilizar o reaproveitamento de milhões de veículos parados, liberar áreas ocupadas e ativar um ciclo produtivo sustentável no estado. 

Mobilização setorial

Por meio do GT articulado pela SME, o mercado avançou junto à Secretaria de Estado de Fazenda (SEF/MG), resultando na redução da carga tributária e na eliminação de barreiras que comprometiam a rastreabilidade das peças. Outro marco relevante foi a criação de um Arranjo Produtivo Local (APL) específico para o setor, voltado à obtenção de linhas de financiamento exclusivas, fortalecendo a representatividade da Adlex-MG em eventos governamentais, estaduais e acadêmicos. 

A entrada das montadoras no mercado de reciclagem de veículos, impulsionada pela Lei Mover, representa um novo ciclo de industrialização e economia circular. Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios como a ampliação da adesão ao credenciamento de empresas junto ao Detran, segurança jurídica na compra de sucatas e apoio financeiro e técnico para a reestruturação dos desmontes tradicionais, adequando-os às exigências das montadoras e às metas de sustentabilidade. 

Conclusão

Exemplos citados de novos entrantes no mercado reforçam também as perspectivas econômicas do setor, mas acentuam, em geral, os desafios burocráticos, fiscais, tecnológicos e ambientais para o seu desenvolvimento. Nesse sentido, o baixo percentual de veículos reciclados representa um relevante potencial de mercado, porém o elevado volume de sucatas apreendidas constitui um gargalo real de matéria-prima para o setor e cujo aproveitamento traria resultados valiosos e imediatos dada a capacidade ociosa disponível.

Minas Gerais alcançou recentemente um diferencial de competitividade no âmbito da reciclagem veicular, resultado de avanços no regime tributário de uma legislação específica para o setor (PRRV em fase de regulamentação) e por uma eficiente articulação entre o governo e a esfera privada através do GT-Reciclagem Veicular. Paralelamente, tramita no GT-RV a minuta da Lei Estadual nº 23.592/2020 de reciclagem veicular, que visa desburocratizar o mercado e ampliar o acesso a materiais recicláveis, reconhecendo que não existe reciclagem sem matéria-prima. 

Espera-se que 2026 seja o ano da consolidação de uma cadeia completa, integrando todos os elos da reciclagem de veículos, incluindo aço, plástico, vidro, pneus e resíduos veiculares não recicláveis, com destaque para parcerias estratégicas entre universidades, centros de pesquisa e indústria automotiva. O objetivo é construir um ecossistema sustentável, tecnológico e economicamente viável, consolidando Minas Gerais como referência nacional e internacional em reciclagem veicular e economia circular.

destaque

“A reciclagem veicular consolida-se como pilar da economia circular ao transformar veículos em fim de vida útil em novas matérias-primas e oportunidades econômicas, reduzindo impactos ambientais e posicionando Minas Gerais como referência nacional em inovação e sustentabilidade no setor automotivo.”

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