O impacto social fortalece a engenharia como instrumento de desenvolvimento humano e social. A escola do pensamento sistêmico, identitária aos engenheiros, perfila a força transformadora capaz de redesenhar territórios, melhorar condições de vida e fomentar cidadania.
Com a ênfase recente da reforma tributária, a compreensão dos incentivos fiscais pode favorecer a atuação estratégica, conectando ações voluntárias e planejamento urbano para o desenvolvimento social. Caminho possível pela reputação da SME em desenvolver ações colaborativas entre profissionais, universidades, associações e o poder público para gerar soluções sustentáveis e escaláveis.
O papel técnico-regulatório: MROSC e a exigência de qualificação
Para ampliar perspectivas, a atuação voluntária dos engenheiros deve buscar a atuação como conselheiro estratégico e articulador entre esferas governamentais, privadas e comunitárias, constituindo parcerias. O Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC) trouxe um novo patamar de exigência para entidades que firmam parcerias com o poder público. A profissionalização da gestão passou a ser condição essencial, exigindo mão de obra qualificada, prestação de contas transparente e estruturação técnica de projetos.
Engenheiros são convocados para planejar, avaliar e propor soluções viáveis dentro dos marcos legais. A captação de recursos para o terceiro setor passa por traduzir necessidades sociais em planos de trabalho com metas, cronogramas/priorizações e resultados mensuráveis. Este é o momento de reconhecer os assentos dos engenheiros em Conselhos de Administração e Conselhos Fiscais das OSCs.
Incentivos fiscais e o fomento à inovação social
O momento convida a estruturar um ecossistema potente para o desenvolvimento de projetos de impacto social, integrando as políticas de incentivo fiscal para financiar soluções técnicas voltadas às comunidades em situação de vulnerabilidade. É relevante qualificar a compreensão da aplicação da Lei do Bem combinada com certificações como o CEBAS (Certificação de Entidade Beneficente de Assistência Social), que favorece a atratividade a outros incentivos como esporte, cultura, infância, idosos e mulheres.
Ao interagir com as instituições existentes, o engenheiro também pode educar a comunidade local (moradores, cuidadores, usuários) sobre uso consciente dos espaços: pequenos reparos, escolhas de materiais com menos impacto, práticas de segregação de lixo e reaproveitamento, garantindo inclusive o fomento à economia circular local.
Essa engenharia tributária se fortalece ainda mais quando combinada com a certificação CEBAS, com leis de incentivo ao esporte, à cultura, à criança e ao adolescente, à pessoa idosa e às mulheres. Ao obtê-la, a entidade amplia significativamente sua capacidade de captação de recursos junto à iniciativa privada, uma vez que a certificação confere reconhecimento público de sua atuação social, isenções tributárias e maior credibilidade junto a empresas que desejam investir com responsabilidade.
Deputados e vereadores, ao analisarem a destinação de emendas parlamentares, tendem a priorizar projetos que apresentam clareza técnica, viabilidade de execução e impacto social mensurável. A assinatura de um engenheiro em um plano de trabalho garante fundamentação de orçamentos compatíveis, cronogramas realistas e soluções adequadas às necessidades locais. A credibilidade profissional aumenta significativamente as chances de destinação de recursos via emenda parlamentar e sua posterior execução sem entraves. Essa colaboração entre parlamentares e profissionais da engenharia fortalece a política pública e assegura o bom uso dos recursos.
Outro ponto estratégico é o uso de verbas pecuniárias — recursos provenientes de acordos judiciais e que podem ser destinados a entidades sociais mediante projetos bem fundamentados. Engenheiros podem contribuir para a elaboração de propostas que envolvam requalificação urbana, projetos de acessibilidade, intervenções sustentáveis e ações educativas em comunidades em vulnerabilidade, maximizando o impacto desses recursos.
Considerando esse ecossistema de incentivos, é importante destacar que os analistas do governo, ao liberarem recursos públicos — seja por emendas parlamentares, verbas pecuniárias ou por meio da aprovação em editais — esperam ver evidenciada a dedicação social para a concepção dos projetos. E é nesse ponto que o registro das horas de trabalho voluntário se torna fundamental. As horas dedicadas por engenheiros e outros profissionais, desde a concepção até a prototipação e acompanhamento técnico dos projetos, representam uma forma objetiva e mensurável de compromisso social.
A dedicação técnica gratuita demonstra o engajamento da sociedade civil na construção coletiva das soluções e amplia a legitimidade dos projetos diante dos analistas públicos. Para fortalecer esse reconhecimento, a Sociedade Mineira de Engenheiros (SME) deve manter e consolidar a compilação formal das horas voluntárias prestadas por seus associados. Esse ato valoriza o esforço individual dos profissionais e reforça o papel institucional da SME como parceira estratégica do poder público no desenvolvimento de políticas de impacto social, tornando visível e valorizado o ativo imaterial que é o conhecimento aplicado a serviço da transformação social.
Extensão universitária e educação continuada
As universidades estão sendo desafiadas a ampliar suas ações, diante do marco da curricularização da extensão. Nesse contexto, as parcerias com o terceiro setor e com associações profissionais ganham destaque como oportunidades para que estudantes e professores se envolvam em projetos reais, com forte impacto social e técnico.
Parcerias com o terceiro setor e com associações profissionais são estratégicas para promover ações reais, como demonstra o e-book da PUC Minas, que apresenta iniciativas interdisciplinares e aplicadas. O apoio a projetos com validação técnica, mentoria e articulação para captação de recursos fortalece a educação continuada, permitindo ao engenheiro interagir com projetos sociais urbanos, que combinam engenharia com sociologia, economia, cultura, saúde pública e gestão.
“Um engenheiro pode ensinar o cidadão e o jovem universitário a cuidar de seu espaço — escolher materiais sustentáveis, consertos simples, práticas de redução de resíduos — e assim tornar protagonistas aqueles que habitam o território, com a chancela da Universidade, pela atuação como mentor em projetos de extensão.”
O engenheiro, em times multidisciplinares, pode trazer a visão sistêmica de causa e efeito para gerar atratividade ao espaço diante da superação de barreiras técnicas (drenagem, risco geológico, energia, mobilidade) que afetam a percepção de segurança e qualidade de vida. O engenheiro voluntário vivencia a prática da pesquisa aplicada, amplia seu repertório, fortalece seu compromisso ético e ainda constrói um portfólio diferenciado com atuação em times multidisciplinares e articulação intersetorial.
Recomendações estratégicas
A atuação qualificada do engenheiro no terceiro setor exige um ambiente institucional preparado para acolher e desenvolver projetos com viabilidade técnica e impacto social. Por isso, uma das primeiras recomendações é investir na capacitação técnica das Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Muitas vezes, essas entidades possuem boas ideias e inserção comunitária, mas enfrentam dificuldades para elaborar projetos conforme os requisitos do MROSC e dos editais públicos. Engenheiros podem atuar como facilitadores desse processo, oferecendo apoio na formatação de planos de trabalho, definição de indicadores, orçamentos e estruturação das etapas de execução.
Outro eixo estratégico é a formação de redes de engenheiros voluntários. Essa rede pode funcionar como uma consultoria colaborativa, com atendimento remoto ou presencial, voltada para apoiar iniciativas comunitárias, associações de bairro, centros culturais e instituições filantrópicas. Com atuação intersetorial, essas redes podem ainda oferecer mentorias, capacitações e parcerias com universidades. Além de ampliar o impacto social, essa iniciativa fortalece o portfólio dos profissionais envolvidos e fomenta um ambiente de troca entre diferentes gerações de engenheiros.
A execução de projetos-piloto é uma ferramenta para validar ideias em pequena escala e demonstrar sua viabilidade técnica e social. Ao atuar com protótipos, os engenheiros podem testar soluções de mobilidade, saneamento, drenagem, energia solar, entre outras tecnologias sociais, e gerar dados confiáveis que sustentem a captação de recursos para expansão. Tais projetos, quando bem documentados, também contribuem para a formação de acervos técnicos e metodológicos, que podem ser replicados por outras organizações em contextos similares.
A adoção de indicadores de impacto e a criação de premiações por boas práticas são medidas que estimulam a melhoria contínua e o reconhecimento de soluções inovadoras. Ao mensurar os resultados de intervenções técnicas — como a redução de consumo energético, o reaproveitamento hídrico ou a melhoria da acessibilidade — as OSCs e seus parceiros conseguem evidenciar o retorno social dos investimentos realizados. As premiações, por sua vez, ajudam a difundir experiências bem-sucedidas e a fortalecer o ecossistema de inovação social na engenharia.
Por fim, é fundamental incentivar a articulação com políticas públicas e instrumentos de financiamento, como as emendas parlamentares e as verbas pecuniárias. Os engenheiros têm capacidade de estruturar projetos com base técnica sólida, que atendam aos critérios exigidos para a liberação desses recursos. Quando alinhados às diretrizes de extensão universitária, como exemplificado pelos projetos integradores, esses esforços ganham ainda mais legitimidade e capilaridade. Assim, a engenharia se consolida como uma aliada estratégica na construção de soluções sustentáveis, inclusivas e inovadoras para os desafios sociais contemporâneos.
| Ação Proposta | Objetivo |
|---|---|
| Capacitação técnica para OSCs | Melhorar elaboração de projetos para MROSC e editais |
| Execução de projetos-piloto | Demonstrar viabilidade de soluções sustentáveis |
| Indicadores de impacto | Avaliar resultados sociais e ambientais |
| Premiações por boas práticas | Incentivar projetos replicáveis de saneamento e energia |
| Parcerias com universidades | Integrar extensão, educação e impacto social |
A engenharia aplicada ao terceiro setor é mais que técnica: é empatia, estratégia e visão de futuro. O profissional que atua nesse campo transforma realidades e, ao mesmo tempo, constrói uma carreira sólida, alinhada aos desafios da sociedade brasileira. O engajamento em ações comunitárias pelo voluntariado favorece a formação cidadã por ampliar o repertório profissional e fortalecer o compromisso ético da engenharia com o bem-estar coletivo.
Para o engenheiro em início de carreira, o voluntariado técnico é uma excelente maneira de construir um portfólio diferenciado, com experiências reais, atuação em times multidisciplinares, integração com o setor público e comunitário — o que agrega valor na trajetória profissional. A articulação intersetorial que o voluntariado proporciona (universidade, empresas, governo, sociedade civil) favorece o desenvolvimento de habilidades de liderança, negociação, empatia e resolução de problemas complexos.
Mais do que construir estruturas, o engenheiro social constrói possibilidades e se conecta com a missão de cada OSC assistida. Trata-se de uma estratégia de carreira que visa consolidar soluções sociais que transcendam a materialidade da forma, do espaço e do tempo.

Josmária Oliveira tem graduação em Contabilidade, Administração e Pedagogia. Doutora em Ciência da Informação, é professora e coordenadora do curso de Ciências Contábeis na PUC Minas e conselheira do Conselho Regional de Contabilidade de Minas Gerais (RCMG). Membro do Conselho da Junta de Educação Batista Mineira, mantenedora da Rede Batista de Educação.