Inteligência Artificial e Engenharia: novos caminhos, novos desafios

Da elétrica à computação, da mecânica aos sistemas, a tecnologia redefine processos e o perfil do profissional de engenharia no Brasil

Entre 2022 e 2024, o percentual de empresas industriais brasileiras que utilizam inteligência artificial saltou de 16,9% para 41,9%, segundo a Pintec Semestral, pesquisa de inovação do IBGE divulgada em setembro de 2025. O crescimento foi transversal: atingiu a engenharia elétrica, a mecânica, a de computação, a de sistemas e a de produção. Para o setor, a mudança redefine processos, competências e o que se espera de um engenheiro no mercado de trabalho.

O impacto já tem endereço em cada especialidade. Na engenharia elétrica, algoritmos de aprendizado de máquina são usados para otimizar a geração de energia solar e eólica e para desenvolver redes inteligentes — as chamadas smart grids — capazes de integrar fontes renováveis com gestão em tempo real. Na engenharia de computação e de sistemas, a IA passou de ferramenta auxiliar a objeto de trabalho: desenvolver, treinar e supervisionar modelos de inteligência artificial tornou-se função do engenheiro. Na mecânica e na de produção, softwares com IA preveem falhas antes que aconteçam, ajustam cronogramas em tempo real e reduzem o tempo de desenvolvimento de produtos.

Para Vicente Soares Neto, engenheiro de Telecomunicações e de Elétrica-Eletrônica e autor dos livros “Cidades Inteligentes”, “Inteligência Artificial” e “O amanhã já começou”, essa transformação tem uma característica inédita em relação às revoluções tecnológicas anteriores: “A eletrônica substitui os músculos, os computadores substituíram cálculos repetitivos e as redes eliminaram barreiras geográficas. A IA, entretanto, começa a substituir parte da análise, da interpretação e até da criatividade técnica.” Na visão dele, a mudança é comparável à soma do impacto provocado pela eletrônica e pela digitalização das comunicações, “só que agora atuando diretamente sobre o processo de raciocínio humano”.

Para Wilson Leal, Engenheiro Eletrônico pela EPUSP e Assessor para Projetos Especiais da SME, um dos impactos mais relevantes da inteligência artificial está na capacidade de apoiar decisões estratégicas e operacionais. Segundo ele, ao simular inúmeros cenários em poucos segundos e antecipar possíveis resultados, a tecnologia amplia a qualidade das escolhas nas organizações. “A eficácia empresarial depende da capacidade de tomar boas decisões, enquanto a eficiência está diretamente ligada à excelência operacional. A IA fortalece essas duas dimensões ao oferecer análises mais rápidas, abrangentes e consistentes para apoiar o gestor”, explica. 

No Brasil, 67% das empresas consideram a IA uma prioridade estratégica, com foco em otimizar operações, reduzir custos e gerar novas fontes de receita, segundo pesquisa da Bain & Company. Diante disso, o governo federal instituiu o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, que prevê investimentos de R$ 23 bilhões até 2028.

O país ocupa posição de destaque no uso da tecnologia. O LinkedIn mapeou as 25 profissões em maior alta para 2026 no Brasil, com engenheiro de IA liderando o ranking. Ao mesmo tempo, o país ainda enfrenta gargalos estruturais, como desigualdades regionais significativas em infraestrutura e formação técnica, e uma dependência expressiva de propriedade intelectual estrangeira na área de IA.

A falta de mão de obra e a chegada de novas funções

A qualificação aparece como gargalo recorrente nas pesquisas. Na pesquisa Inteligência Artificial no Mundo Corporativo, da SAP, 62% das empresas estão investindo na formação de colaboradores para lidar com esse desafio, e outras 35% pretendem fazê-lo em breve. Ainda assim, a barreira persiste: a escassez de profissionais aptos a operar aplicações de IA é apontada de forma recorrente por empresas de diferentes setores como um dos principais obstáculos à adoção da tecnologia.

No campo da engenharia, surgem novos perfis como engenheiro de IA, arquiteto de soluções inteligentes e especialista em ética algorítmica. O Relatório sobre o Futuro dos Empregos 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que, em média, 39% das habilidades exigidas no mercado de trabalho devem mudar até 2030.

Com cinco décadas de carreira e tendo vivido de dentro grandes transformações do setor, Soares Neto chama atenção para um risco que acompanha essa aceleração: “A IA pode produzir respostas extremamente convincentes e tecnicamente incorretas. Esses erros são particularmente perigosos porque muitas vezes parecem plausíveis. Os profissionais mais valorizados serão aqueles capazes de combinar conhecimento técnico profundo, pensamento crítico, visão sistêmica e uso inteligente da IA”.

Nesse cenário, a Sociedade Mineira de Engenharia (SME) está ao lado dos profissionais, apoiando engenheiros de todas as gerações e incentivando o desenvolvimento de novas competências para os desafios que estão por vir. Para quem ainda hesita diante das mudanças, Soares Neto recorre a um conselho que recebeu do Brigadeiro Theobaldo Antônio Kopp, então Presidente da Telemig, ainda no início da trajetória: “Vicente, não sofra com as mudanças, participe delas.”

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