Muito antes da quadrilha: a engenharia que garante a segurança das festas juninas 

Das quermesses tradicionais do interior aos grandes festejos de Belo Horizonte: conheça a engenharia por trás das festas juninas mineiras

As festas juninas estão entre as manifestações culturais mais tradicionais de Minas Gerais. Durante os meses de junho e julho, arraiais ocupam praças, ruas, parques e centros de eventos, reunindo milhares de pessoas em celebrações marcadas por música, gastronomia, danças e religiosidade popular. Mas, para que a festa aconteça com segurança e boa estrutura, existe um trabalho que quase ninguém vê: o da engenharia.

Em Minas Gerais, onde os festejos vão dos arraiais das cidades históricas, como Ouro Preto, aos grandes eventos realizados na capital, esse desafio ganha contornos ainda mais complexos. Palcos, redes elétricas, controle de público, prevenção de incêndios e proteção do patrimônio histórico exigem planejamento técnico rigoroso.

Segundo estudos sobre estruturas temporárias apresentados no Congresso Técnico Científico da Engenharia e da Agronomia (CONTECC), promovido pelo Sistema Confea/Crea, palcos destinados a grandes eventos precisam ser dimensionados para suportar muito mais do que o peso dos equipamentos de som, iluminação e painéis de LED. A literatura de engenharia estrutural demonstra que essas estruturas também são submetidas às chamadas cargas dinâmicas, provocadas pela movimentação do público, pelas vibrações dos equipamentos e pela própria operação do espetáculo.

Marco Antônio Silva Rodrigues, engenheiro civil, engenheiro de produção, engenheiro de segurança do trabalho e especialista em engenharia de eventos, explica que, quando as pessoas chegam a uma festa junina mineira, elas enxergam o palco, as barraquinhas, a fogueira e a decoração. O engenheiro enxerga um sistema inteiro funcionando. “Antes da abertura do evento, analisamos se o local comporta o público esperado, dimensionamos acessos, saídas de emergência, rotas de fuga, áreas de circulação, acessibilidade e todos os elementos necessários para que a festa aconteça com segurança. Também realizamos inspeções técnicas nas estruturas temporárias, avaliamos as características do terreno, verificamos os sistemas de travamento e estabilidade, analisamos as cargas que cada estrutura irá suportar e identificamos possíveis situações de sobrecarga que possam comprometer sua segurança. Quando necessário, são realizados cálculos estruturais para garantir que palcos, tendas, torres e demais estruturas atendam às condições previstas para a operação do evento. Durante a montagem, acompanhamos a execução para verificar se tudo está sendo construído conforme o projeto, porque muitas situações só aparecem em campo e precisam ser corrigidas antes da liberação. Além disso, monitoramos fatores como vento, chuva e outras condições climáticas que podem exigir medidas preventivas, reforços estruturais ou até mesmo a interrupção das atividades, sempre seguindo protocolos de segurança. Todo esse trabalho é formalizado por meio da Anotação de Responsabilidade Técnica (ART), documento que identifica o engenheiro responsável e assegura que exista um profissional legalmente habilitado respondendo tecnicamente pelo evento. O papel da engenharia vai muito além da montagem das estruturas. Nosso compromisso é antecipar riscos, proteger vidas e criar um ambiente seguro para que milhares de pessoas possam aproveitar a tradição com tranquilidade.

Para Nicolau Neder, Engenheiro Eletricista e gerente do departamento técnico e de Fiscalização do CREA MG, a ART representa muito mais do que uma exigência burocrática. “A ART identifica quem responde tecnicamente por cada etapa do serviço. Ela assegura que exista um profissional habilitado assumindo a responsabilidade pelo projeto e pela execução, oferecendo mais segurança aos organizadores, aos órgãos públicos e à população.”

Se a estrutura física precisa ser cuidadosamente calculada, a energia que mantém a festa funcionando também depende de planejamento. Uma festa de porte médio pode consumir o equivalente à demanda simultânea de dezenas de residências. Por isso, engenheiros eletricistas dimensionam geradores, projetam redes temporárias de distribuição e especificam sistemas de proteção capazes de evitar sobrecargas, curtos-circuitos e acidentes durante todo o funcionamento do evento.

Nicolau Neder complementa dizendo que  praticamente tudo o que acontece em um arraial depende da confiabilidade desse sistema. “A infraestrutura elétrica precisa garantir fornecimento contínuo, mas, acima de tudo, segurança. Cada circuito é calculado de acordo com a carga prevista e protegido por dispositivos específicos. Isso evita falhas, reduz riscos de incêndio e garante o funcionamento dos equipamentos durante toda a programação.”

Outro símbolo que não pode faltar nas festas juninas também passa pela engenharia. A tradicional fogueira exige planejamento técnico antes mesmo de ser acesa. O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) estabelece critérios relacionados ao local de instalação, às distâncias mínimas de segurança, à altura das chamas, aos materiais utilizados e às medidas de prevenção contra incêndios para concessão da autorização do evento.

Os fogos de artifício seguem o mesmo rigor técnico e ainda guardam uma curiosidade científica que pouca gente conhece. Segundo pesquisadores da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), as diferentes cores observadas nas explosões são produzidas pela emissão de luz característica de sais metálicos aquecidos em altas temperaturas. O vermelho é obtido a partir do estrôncio, o verde do bário e o azul de compostos de cobre. O espetáculo que encanta o público é também uma demonstração prática da ciência, cada cor observada no céu resulta do comportamento de elementos químicos submetidos a altas temperaturas. É um exemplo interessante de como conhecimentos de química e engenharia estão presentes até mesmo em manifestações culturais populares.

O público também precisa da atenção dos engenheiros. Estudos sobre dinâmica de multidões, desenvolvidos pelo pesquisador Keith Still, referência internacional na área de segurança em eventos, demonstram que, quando a concentração de pessoas ultrapassa determinados limites, a multidão passa a apresentar comportamento semelhante ao de um fluido, formando ondas de pressão capazes de dificultar a movimentação individual. Esse conhecimento é utilizado mundialmente no planejamento de grandes eventos e auxilia na definição de capacidades máximas, rotas de evacuação e sistemas de controle de acesso.

Para Marco Antônio Silva Rodrigues, engenheiro civil, engenheiro de produção, engenheiro de segurança do trabalho e especialista em engenharia de eventos, a segurança de uma festa junina começa muito antes da chegada do público e envolve um planejamento técnico que acompanha todas as etapas da operação. “O comportamento das pessoas faz parte do projeto tanto quanto qualquer estrutura física. Quando milhares de pessoas ocupam um mesmo espaço, detalhes como a largura dos corredores, o posicionamento das saídas de emergência, a distribuição das barreiras de contenção, o controle de acesso e a capacidade de cada ambiente deixam de ser simples decisões de organização. Eles passam a ser elementos fundamentais para a segurança coletiva. Por isso, o engenheiro de segurança participa da elaboração do Plano de Emergência, da análise de riscos da operação, acompanha a montagem e a desmontagem das estruturas, verifica o cumprimento das Normas Regulamentadoras (NRs), orienta sobre o uso adequado dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e coordena treinamentos, como a formação das brigadas de incêndio. Durante todo o evento, também monitora fatores que podem alterar o nível de risco, como vento, chuva e descargas atmosféricas, além de atuar de forma integrada com a produção, os responsáveis técnicos, o Corpo de Bombeiros e as equipes de emergência. A engenharia de segurança trabalha para antecipar cenários, identificar riscos e adotar medidas preventivas antes que qualquer incidente aconteça. Quando todo esse planejamento funciona, o público aproveita a festa com tranquilidade, muitas vezes sem perceber a complexa operação que existe nos bastidores para proteger trabalhadores, artistas e milhares de pessoas.”

A localização de ambulâncias, pontos de atendimento médico, rotas de circulação para equipes de emergência, acessibilidade para pessoas com deficiência e sistemas de comunicação fazem parte do conjunto de medidas adotadas para que a festa aconteça de forma organizada e segura.

E o balão? Do ponto de vista da física, ele funciona pelo mesmo princípio dos balões de ar quente: o ar aquecido torna-se menos denso que o ar frio ao redor, permitindo sua ascensão. O problema começa quando deixa de ser possível controlar seu destino.

O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais e órgãos ambientais alertam que, ao ser lançado, o balão pode cair sobre áreas de vegetação, edificações, lavouras ou redes elétricas, aumentando significativamente o risco de incêndios. Desde 1998, a fabricação, comercialização, transporte e soltura de balões que possam provocar incêndios são considerados crimes ambientais pela Lei Federal nº 9.605/1998.

Segundo Daniela Pedroza, engenheira ambiental, o maior perigo está justamente na imprevisibilidade. “Depois que o balão é lançado, ninguém consegue controlar onde ele vai cair. Uma única queda sobre vegetação seca, áreas urbanas ou linhas de transmissão pode desencadear incêndios de grandes proporções e colocar vidas, patrimônios e ecossistemas em risco.”

O desafio da engenharia, nesse contexto, não é eliminar as tradições, mas contribuir para que elas possam ser preservadas de forma segura e responsável. A tecnologia, o planejamento e o conhecimento técnico permitem conciliar manifestações culturais com proteção às pessoas, ao patrimônio histórico e ao meio ambiente.

Para a Sociedade Mineira de Engenharia, esse é um exemplo de como diferentes especialidades trabalham de forma integrada. Engenheiros civis calculam estruturas; engenheiros eletricistas projetam sistemas de energia; engenheiros químicos ajudam a compreender os materiais empregados nos fogos de artifício; engenheiros ambientais atuam na prevenção de incêndios; especialistas em segurança planejam o comportamento das multidões. Cada área contribui com conhecimentos específicos para que milhares de pessoas possam celebrar com tranquilidade.

Muito antes de a primeira música começar ou de a fogueira ser acesa, a engenharia já está em ação. Estruturas, energia, prevenção, logística, acessibilidade e segurança são cuidadosamente planejadas para que a tradição aconteça sem imprevistos. Esse trabalho, muitas vezes invisível para quem participa da celebração, traduz a essência da engenharia: antecipar riscos, proteger pessoas e transformar conhecimento técnico em bem-estar coletivo. É por isso que a Sociedade Mineira de Engenharia reforça que, por trás de todo arraial, quermesse ou grande festejo bem-sucedido, existe o compromisso de profissionais que colocam a técnica, a ciência e a inovação a serviço da vida.

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