Apenas 1,5% dos veículos em fim de vida útil é reciclada no Brasil anualmente, índice bem abaixo do registrado em países como 80% nos Estados Unidos e 95% no Japão.
Minas Gerais avança para se consolidar como referência nacional em reciclagem veicular emergindo como protagonista na transformação de um setor que reúne desafios ambientais, econômicos e tecnológicos de relevância estratégica para o país, movimento que conta com a participação de entidades como a Sociedade Mineira de Engenharia (SME).
A reciclagem veicular é um dos pilares mais promissores da economia circular no setor automotivo, modelo que busca reaproveitar materiais e reduzir o descarte, em vez de extrair, produzir e descartar. Além do impacto ambiental positivo, a atividade gera emprego, fortalece cadeias produtivas regionais e reduz o consumo de recursos naturais. No Brasil, cada tonelada de sucata ferrosa reaproveitada evita a emissão de 1,5 tonelada de CO2. A Gerdau, maior recicladora de sucata ferrosa da América Latina, processa cerca de 11 milhões de toneladas por ano, volume que responde por 71% do aço produzido pela companhia e demonstra a viabilidade econômica e ambiental da atividade.
O que os números mostram
No Brasil, apenas 1,5% dos cerca de 46 milhões de automóveis e comerciais leves em circulação, segundo dados do Sindipeças, recebe destinação adequada, embora cerca de 2 milhões de carros cheguem ao fim do ciclo todos os anos. Segundo a Renova Ecopeças, empresa do Grupo Porto especializada em desmontagem veicular, cerca de 85% das peças de um veículo são reaproveitáveis, 10% são recicláveis e apenas 5% precisam de descarte ambientalmente correto.
Em Minas Gerais, a mobilização do setor ganhou força com a criação do Grupo de Trabalho de Reciclagem Veicular, o GT-RV, pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado, a Sede-MG, em junho de 2024. O grupo reúne também a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Semad), a Secretaria de Estado da Fazenda (SEF), a Associação dos Desmontes Veiculares e Peças Recicladas de Minas Gerais (Adlex-MG), o Cefet-MG, a montadora Stellantis, a Sociedade Mineira de Engenharia (SME) e a Fundação de Apoio à Pesquisa da UFMG (Fundep).
À SME cabe um papel técnico central nessa articulação, contribuindo com know-how de engenharia para estruturar processos e padrões do setor. Essa articulação já produziu avanços na redução da carga tributária junto à SEF/MG e na eliminação de barreiras regulatórias que comprometiam a rastreabilidade das peças. Em junho de 2026, a Sede-MG recebeu na Cidade Administrativa uma comitiva da empresa japonesa Kaiho Sangyo para discutir experiências de desmontagem, rastreabilidade e comercialização de peças reutilizadas, dando sequência à cooperação entre Minas Gerais e o Japão no setor.
“Estamos diante de uma oportunidade única de repensar processos”, afirma Wilson Leal, Engagement Director da Goldratt Consulting e assessor para projetos especiais na SME. “Quando alinhamos inovação, sustentabilidade e eficiência operacional, criamos um ecossistema onde todos os atores ganham.” Para Leal, o modelo em construção em Minas permite a criação de mais empresas dedicadas à coleta, distribuição e reciclagem de materiais provenientes de veículos, dando mais dinâmica a um setor ainda dependente de um ambiente de negócios mais favorável no estado.
A Lei nº 23.592, sancionada em março de 2020, instituiu o Programa de Reciclagem de Resíduos Veiculares (PRRV) em Minas Gerais, estabelecendo as bases regulatórias para essa transformação, entre elas o controle ambiental, a segurança no trânsito e a criação de mecanismos de rastreabilidade sobre veículos baixados.
Em dezembro de 2025, o governo estadual sinalizou que o decreto que vai regulamentar essa lei estava em fase final de elaboração, com previsão de publicação para meados de 2026. O prazo se aproxima agora, em julho. Entre as propostas em discussão está a criação de um Conselho Estadual de Economia Circular, que aceleraria decisões e alinharia os esforços de governo, empresas, academia e sociedade civil.
A Lei nº 14.902/2024, conhecida como Lei Mover, abriu espaço para a entrada das montadoras no negócio de reciclagem ao exigir níveis mínimos de reciclabilidade nos veículos fabricados no país. Um exemplo é a Stellantis, que inaugurou em agosto de 2025, em Osasco (SP), o primeiro Centro de Desmontagem Veicular Circular Autopeças do país, tornando-se a primeira montadora da América do Sul a investir em uma planta dedicada ao desmonte de veículos sinistrados ou em fim de vida útil. Em nove meses de operação, o centro já desmontou mais de mil veículos e comercializou cerca de 8 mil peças.
Minas Gerais também ganhou, em fevereiro de 2026, um marco relevante: a Igarapé Reciclagens, do Grupo Sada, inaugurada em Igarapé, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Com investimento privado de R$ 200 milhões, é considerado o maior centro de reciclagem automotiva do Brasil.
Os desafios persistem: a ampliação da adesão ao credenciamento junto ao Detran, a segurança jurídica na compra de sucatas e o apoio para adequar desmontes tradicionais às exigências das montadoras seguem na agenda do setor. O volume expressivo de sucatas apreendidas configura um gargalo de matéria-prima, cujo aproveitamento geraria resultados significativos, dada a capacidade ociosa disponível.
Projeta-se que este seja o ano da consolidação de uma cadeia completa de reciclagem em Minas Gerais, integrando todos os elos do processo, do aço ao plástico, passando por vidro, pneus e resíduos não recicláveis. Parcerias entre universidades, centros de pesquisa e indústria automotiva se intensificam, com o objetivo de construir um ecossistema tecnológico, viável e responsável que coloque o estado como referência global.
Para Daniel Castro, fundador do Centro Internacional da Reciclagem Automotiva (Cira), instalado no Cefet-MG com apoio da Agência Japonesa de Cooperação Internacional (Jica), se o Brasil alcançasse a meta de reciclar dois milhões de veículos por ano (cerca de 4% da frota circulante), os benefícios seriam substanciais: economia de energia elétrica, geração de créditos de carbono, fortalecimento da agenda de transição energética e descarbonização industrial, além da economia de milhões de toneladas de minério de ferro.
A parceria com a Jica trouxe à capital mineira a primeira Unidade Piloto de Reciclagem Automotiva da América Latina (Upra), desenvolvida com a empresa japonesa Kaiho Sangyo.
Nesse cenário, a atuação da Sociedade Mineira de Engenharia (SME) reforça o papel de Minas Gerais como laboratório dessa transformação. A convergência entre regulamentação, inovação técnica e cooperação entre setor público e privado cria as condições para que o estado consolide um modelo exportável, capaz de beneficiar a economia brasileira e reafirmar o compromisso do país com a sustentabilidade.