Crescimento na produção nacional de elétricos e híbridos escancara o peso da tecnologia de baterias na disputa por competitividade, segundo especialista da Stellantis
A produção brasileira de veículos elétricos e híbridos saltou de 17.624 unidades nos cinco primeiros meses de 2023 para 132.604 no mesmo período de 2026, um crescimento de 652%, segundo dados do Renavam. Em 2025, o total anual já havia alcançado 190.200 unidades, alta de 208% frente ao ano anterior. A curva expõe uma transformação que, segundo Sergio Brasil, Analista de Custos e Estratégias de Tecnologia Industrial na Stellantis South America, tem nome e origem bem definidos.
“Este crescimento exponencial se deve à invasão chinesa, principalmente a BYD, que decidiu investir no Brasil, haja vista a capacidade produtiva que existe na China, abundante, e as oportunidades existentes no Brasil”, afirma o analista, que atua há 33 anos no setor automobilístico.
A entrada de fabricantes chineses no país não se limitou à importação. Dez marcas chinesas já operavam no Brasil até 2025, com mais seis previstas a partir de 2026, e a expectativa é de que essas empresas injetem 30 bilhões de reais no mercado brasileiro até 2032. Hoje, apenas três delas mantêm produção local: BYD, em Camaçari, GWM, em Iracemápolis, e CAOA Chery, em Anápolis. O avanço já aparece nas vendas: em maio, modelos chineses lideraram o ranking de mais vendidos em 19 dos 26 estados brasileiros, com a BYD despontando como marca mais vendida em 15 deles.
O ritmo de expansão também aparece na comparação de participação de mercado entre um ano e outro. Na soma acumulada até maio, veículos chineses saltaram de 8,2% de participação em 2025 para 15,7% em 2026, quase dobrando de tamanho em doze meses.
Para Sérgio, esse avanço já expõe fragilidades da infraestrutura brasileira e cria riscos concretos para o ritmo da transição. “Os riscos que a eletrificação enfrenta são as questões de infraestrutura, que ainda precisa se adaptar, e a concorrência, que irá dificultar através de pressões junto ao governo, com restrições que podem aumentar as tarifas”, avalia.
Custo, não meio ambiente, decide a compra
O crescimento acelerado da eletrificação também reflete uma mudança na lógica de decisão de quem compra ou opera uma frota. Segundo o analista, o argumento ambiental deixou de ser o principal fator de adesão. “O carro elétrico, além de contribuir com o meio ambiente devido à não emissão de CO2, trouxe a grande vantagem de um ganho de no mínimo 100% no custo do consumo e uma redução grande no custo de manutenção, devido à simplicidade da motopropulsão”, explica.
Esse ganho financeiro esbarra, no entanto, em um obstáculo estrutural: o custo da bateria, componente que pode representar até 40% do valor total de um veículo elétrico. Enquanto o custo médio internacional gira em torno de 115 dólares por kWh, grupos como a BYD operam em uma faixa estimada entre 44 e 56 dólares por kWh. Essa vantagem de custo se soma a outros fatores que, segundo especialistas do setor, tornam a entrada chinesa difícil de igualar: plataformas de eletrificação já maduras, domínio tecnológico construído ao longo de anos de subsídios estatais e de concorrência doméstica intensa, além de escala de produção muito superior à disponível hoje no Brasil.
Para o analista, essa distância expõe um atraso tecnológico que não deve ser subestimado. “O Brasil necessita investir em tecnologia, porém a distância é enorme, pois estamos mais de dez anos atrás, e os chineses continuam acelerando em tecnologia de baterias num ritmo acima da média mundial”, diz. Dentro da própria montadora, ele identifica a mesma barreira quando o assunto é decisão de investimento em novas linhas de produção elétrica: “A maior dificuldade hoje é o conhecimento tecnológico ainda inferior ao dos chineses. Um grande gap de know how que precisará de grandes investimentos tecnológicos para sermos competitivos futuramente.”
Para reverter esse cenário, ele aposta em parcerias inteligentes com os chineses aliadas a investimento público e privado em tecnologia. “No meu entender, estamos muito distantes, e só parcerias inteligentes com os chineses e investimento em tecnologia por parte de todos e do governo poderemos melhorar a situação daqui a alguns anos”, afirma.
Baterias definem o futuro da competência técnica
Diante desse cenário, o especialista aponta um caminho direto para quem atua com análise de custos e estratégia tecnológica na indústria automotiva: dominar a engenharia de baterias. “A competência tecnológica em baterias, principalmente”, resume, ao ser questionado sobre quais habilidades se tornam indispensáveis diante da transição acelerada para a eletrificação.
Para o analista, a eletrificação é uma nova forma de locomoção com menor custo e qualidade equivalente à dos veículos a combustão. Ele credita ao Brasil condições naturais raras para liderar essa transição, entre elas a extensão territorial, a malha rodoviária e o potencial energético do país, com sol o ano todo, ventos no Nordeste e uma das maiores bacias hidrográficas do mundo. “Precisamos investir bem em tecnologia, fazer parcerias inteligentes com os chineses e surfar nesta nova onda, que nos levará a um crescimento econômico”, conclui.
Bio Sergio Brasil: Analista de Custos e Estratégias de Tecnologia Industrial na Stellantis South America. Atua em processos estratégicos voltados à competitividade industrial, com experiência em análise de custos, avaliação de oportunidades tecnológicas, engenharia de produto, estudos de investimento, benchmarking e otimização de processos no setor automotivo.
