Transição energética em Minas Gerais: desafios e oportunidades para engenharia

Em 2025, Minas Gerais ultrapassou São Paulo e passou a ser o estado com maior capacidade instalada de energia elétrica do Brasil, segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica, publicado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Capacidade instalada é a quantidade máxima de energia que um conjunto de usinas consegue produzir ao mesmo tempo, medida em megawatts ou gigawatts. Minas também lidera a geração solar em usinas de grande porte (geração centralizada): soma 13,7 gigawatts de potência instalada em painéis fotovoltaicos, somando usinas de grande porte e sistemas menores instalados em telhados, o que representou 23% de toda a energia solar produzida no Brasil em 2024, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN), da própria EPE.

Esses números explicam por que engenheiros de diferentes especialidades passaram a ter mais espaço no estado. Ao mesmo tempo, a mesma transformação que gera empregos e investimentos também provoca conflitos em regiões como o Vale do Jequitinhonha, onde a mineração de lítio tem causado danos a casas, ao solo e à água usada por comunidades locais. Entender os dois lados dessa mudança é essencial para dimensionar o papel que a engenharia mineira deve cumprir nos próximos anos.

O que é transição energética?

Transição energética é o nome dado à troca gradual de fontes de energia que emitem muito carbono, como petróleo e carvão, por fontes renováveis ou de baixa emissão, como sol, vento, biomassa e hidrogênio produzido com energia limpa. O conceito também inclui o uso mais eficiente da eletricidade já existente, para que se precise gerar menos energia nova para atender à mesma demanda.

No caso do Brasil, esse processo tem uma característica que o diferencia da maioria dos países: a matriz elétrica brasileira já nasce majoritariamente limpa, construída ao longo de décadas em torno das hidrelétricas. Em Minas Gerais, isso fica evidente nos números do Panorama do Setor Elétrico de Minas Gerais, estudo da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sede-MG): o estado gerou 73.478 gigawatts-hora de eletricidade em 2024, crescimento de 10,4% em relação a 2023, o que colocou Minas na quarta posição entre os estados que mais geram energia no país. Praticamente toda essa energia, cerca de 98%, veio de fontes renováveis: 66% de hidrelétricas, 22% de usinas solares e 10% de biomassa, restando menos de 2% para fontes fósseis, como gás natural e derivados de petróleo.

A comparação com o passado ajuda a entender a velocidade da mudança. Em 2015, a energia hidrelétrica respondia por 74% da geração do estado, a biomassa por 15% e as fontes fósseis por 11%. Em quase dez anos, portanto, o crescimento não veio da substituição de uma fonte suja por uma limpa, já que o estado já era predominantemente limpo, mas da diversificação da matriz, com a entrada em peso da energia solar.

Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que essa expansão segue relevante, embora tenha perdido velocidade recentemente. Em 2025, Minas somou 1.294,75 megawatts em novos empreendimentos, um dos maiores volumes entre os estados brasileiros. Já entre janeiro e abril de 2026, o estado adicionou 409 megawatts de capacidade instalada, com a entrada em operação de nove novas usinas, um recuo de 11,7% em relação ao mesmo período de 2025. Ainda assim, o estado respondeu por mais de 90% de todo o crescimento da geração de energia na região Sudeste no período.

Parte importante desse avanço vem da chamada geração distribuída (GD), sistema pelo qual famílias, produtores rurais e empresas instalam painéis solares para gerar sua própria energia e usar o excedente como crédito na conta de luz. Segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Minas Gerais já tem mais de 140 mil unidades consumidoras com sistemas fotovoltaicos instalados e deve receber cerca de R$ 3,7 bilhões em investimentos no setor solar em 2026, distribuídos entre cidades como Uberlândia, Belo Horizonte, Montes Claros, Uberaba e Governador Valadares. Nesse segmento específico de geração distribuída, o estado ocupa o segundo lugar no ranking nacional, atrás apenas de São Paulo, posição distinta da liderança que Minas mantém na geração solar centralizada, mencionada no início do artigo.

Esse conjunto amplia o espaço de atuação de diferentes especialidades da engenharia. A engenharia elétrica é chamada para projetar usinas solares e eólicas, integrar essas fontes à rede elétrica e desenvolver sistemas de automação capazes de monitorar falhas em tempo real. Também ganha importância o armazenamento de energia por baterias, que permite guardar excedentes de geração renovável e disponibilizar eletricidade nos momentos de maior necessidade, contribuindo para a estabilidade e a flexibilidade do sistema elétrico. A engenharia participa do dimensionamento, da integração e da operação desses sistemas, criando novas possibilidades para o aproveitamento da energia solar e para a segurança energética. A engenharia mecânica e de produção participa do projeto de equipamentos e da eletrificação de processos industriais que hoje dependem de combustíveis fósseis. A engenharia de minas e de materiais ganha espaço com a exploração de minerais usados em baterias e equipamentos de geração renovável. Já a engenharia ambiental e civil atua no licenciamento de novos empreendimentos, na avaliação de impactos e no projeto de obras capazes de resistir a eventos climáticos mais extremos, como chuvas fortes e secas prolongadas.

O outro lado da transição: lítio e conflitos no Vale

Essa mesma dinâmica, que cria empregos e movimenta investimentos, também pressiona territórios do estado. O caso mais discutido é o do Vale do Jequitinhonha, região que concentra a maior reserva de lítio do Brasil, mineral usado principalmente na fabricação de baterias de veículos elétricos. Segundo reportagens publicadas por veículos como a Revista Pesquisa Fapesp, moradores da região relatam rachaduras em suas casas atribuídas a explosões das mineradoras, poeira constante, ruído de máquinas e mudanças no volume de água disponível em nascentes e córregos usados pelas comunidades. Lideranças indígenas e quilombolas da região relatam ainda o aumento do valor dos aluguéis nas cidades, provocado pela chegada de trabalhadores ligados à mineração, e a ocupação de áreas antes usadas para roças e moradia tradicional, incluindo trechos próximos a uma área de proteção ambiental que abriga mais de 130 nascentes.

Esses episódios mostram um ponto que qualquer análise equilibrada da transição energética precisa considerar. Os minerais necessários para reduzir as emissões de carbono do planeta, entre eles o lítio, mas também o nióbio, a grafita e as terras raras, dependem de atividades de mineração que, sem controle técnico e social adequado, podem repetir riscos já conhecidos em Minas Gerais, além de contaminação da água e disputas por terra. A instalação de grandes parques solares e eólicos também levanta questões sobre uso do solo, da água e o diálogo com comunidades tradicionais, ainda que em escala diferente da mineração.

É nesse ponto que a engenharia tem um papel que vai além da geração de energia. Avaliação de impacto ambiental, cálculo do uso de água em processos industriais e de mineração, gestão de rejeitos e projeto de barragens dentro de normas de segurança mais rígidas são tarefas tão importantes para a transição energética quanto o projeto de uma usina solar. É esse tipo de trabalho que sustenta o conceito de transição energética justa, cada vez mais discutido em fóruns internacionais e no debate público brasileiro. A ideia é que a troca da matriz energética só é sustentável se distribuir de forma equilibrada seus custos e benefícios entre regiões, comunidades e cadeias produtivas, em vez de concentrar os ganhos em poucos atores e os prejuízos em outros.

Para a Sociedade Mineira de Engenharia, o desafio dos próximos anos passa por formar profissionais preparados tecnicamente para essas duas frentes: a que constrói a nova infraestrutura de energia limpa e a que avalia, com rigor, os efeitos dessa construção sobre o território e as pessoas que nele vivem.

Artigos Relacionados